Cada leitor tem sua própria biblioteca de referências formada, entre tantos outros fatores, por suas experiências pessoais, leituras, filmes vistos, e uma boa dose de imaginário popular. É parte do motivo pelo qual cada leitura é única. Mas o tal do imaginário popular é também responsável por um fenômeno que muito me intriga: os estereótipos de criaturas da ficção.
Pense rápido: como deve ser um vampiro para você? Virtualmente imortal, pálido, sensível ao sol, sugador de sangue humano, caninos como presas, insensível ao sentimento humano? E um zumbi? Destituído de inteligência, lento, comedor de cérebros, talvez? São algumas características que, para nós, definem a criatura, e se tornaram tão canônicas que geram histeria em alguns leitores quando não seguidas à risca.
Como exemplo, temos o não tão novo debate sobre os vampiros da série de Stephenie Meyer. Mesmo apresentando uma justificativa relativamente plausível para as características com as quais dotou seus personagens, foi crucificada por fãs de fantasia, leitores e críticos por suas escolhas. O argumento mais ouvido é “onde já se viu vampiro brilhar?”, seguido de “a autora criou uma fada, não um vampiro!”.
Isso porque o conceito de vampiros, zumbis, e outros seres sobrenaturais está tão arraigado que qualquer quebra de paradigma causa estranheza e desconforto. Uma explicação plausível é o fato da maioria dessas criaturas serem personagens de lendas antes de entrarem no mundo da literatura. Não me excluo entre os leitores que acharam no mínimo esdrúxulo um vampiro brilhar. Por outro lado, não consigo encontrar uma resposta lógica a esse estranhamento.
Afinal, esses seres (em princípio) não existem. As características que consideramos canônicas foram criadas pela imaginação de alguém, de maneira totalmente arbitrária. Suas ideias foram aproveitadas por outros autores, sempre com leves modificações. Mesmo assim, tratamos do assunto como se fossem seres reais com os quais travamos uma espécie de conhecimento íntimo. Não há nenhuma evidência concreta de que tal ser tenha que se comportar de uma determinada forma.
Como ilustração, numa busca rápida nos meus arquivos de memória só sobre o mais comentado vampiro, me vem à mente que Drácula foi inspirado em Vlad o empalador que, segundo consta, tinha fobia de espelhos. Outra origem bastante comentada seria Elizabeth Bathory que, diziam, banhava-se em sangue de virgens para manter-se jovem. Há também lendas sobre corpos exumados e encontrados intactos com aparência rosada e roliça, como se recém alimentados, suas bocas manchadas de sangue, e as histórias de Peter Plogojowitz e Arnold Paole. Na ficção, além do clássico de Bram Stoker, mas ainda no século XIX, tem a novela do Polidori. Há ainda um livro chamado O vampiro antes do Drácula em que os organizadores compilam vários contos de vampiros, demonstrando sua evolução como personagem.
Logo, em teoria, todos temos a liberdade de criar nossos seres sobrenaturais com as características que quisermos. Não há um registro de patente para esses seres. Nossa noção vem de uma miríade de folclores e obras de ficção, muitas delas paradoxais. O interessante é que somos mais intolerantes quando o foco são seres que habitam nossos pesadelos. Não vejo o mesmo escárnio quando tratamos de super heróis, por exemplo. O que faz de um herói ser super nem sempre é um poder sobrenatural – afinal, o Batman é apenas um homem engenhoso e absurdamente rico.
Esse escárnio é dirigido aos autores que por um motivo ou outro ousam ultrapassar os limites de nosso imaginário. Mas até onde esses limites podem ser forçados? Pois, com as gerações, todos esses personagens sofreram mudanças e muitas delas foram toleradas e até mesmo aceitas sem questionamento. Não tenho uma resposta para minha pergunta, mas acho que a reflexão é válida.