“Solitária” conta a história de duas mulheres negras, Mabel e Eunice, que são mãe e filha e residem, trabalhando, em um conjunto residencial de alto padrão. Eunice, a mãe, é testemunha fundamental de um crime impactante ocorrido na residência de seus empregadores. Por outro lado, Mabel, a filha, delineia o percurso que não apenas nos leva ao acontecimento chave do enredo, mas também desencadeia uma transformação drástica na vida de todos que as cercam.

A primeira narradora da história é Mabel e o livro começa com o dia que ela precisou ficar com a mãe durante o expediente no condomínio luxuoso. Acompanhamos, então, seu crescimento, seus sentimentos pela condição de empregada doméstica, suas descobertas de adolescência e sua libertação, junto com uma aprovação no vestibular de Medicina.

Depois temos o ponto de vista de dona Eunice. Vemos a angústia de sua luta diária para que a filha possa ter condições melhores de vida e não passe pelo mesmo que ela foi obrigada a passar — ponto muito abordado pela mãe de Eunice.

Infelizmente, a história das nossas protagonistas é bastante conhecida por nós brasileiros. O crime que dona Eunice presencia é frequente nos nossos jornais. Eliana Alves Cruz elucida muito bem, com uma escrita ágil, a situação das empregadas domésticas no Brasil, destacando os longos anos de sofrimento de violências psicológicas. Esses desafios são resultado de uma soma de fatores da formação do nosso processo social que é uma das heranças do escravagismo no país.

Fiquei obcecada pela escrita, assim como pela desenvoltura do enredo, e devo ter lido em apenas dois dias. Adorei como o livro termina, com uma voz narrativa original e inusitada, que ilustra bem a sociedade que trocou as senzalas pelos “quartinhos“.