Mariana M. Braga

A Queda

Albert Camus foi um grande escritor existencialista. Seu romance A Queda (La chute) reflete seus questionamentos filosóficos sobre o mundo e a existência humana em um monólogo do personagem Jean-Baptiste Clamence, advogado parisiense que acabou por se auto-intitular “juiz-penitente”. Isso se dá pela culpabilidade que ele carrega por não ter dado atenção a uma mulher que vira na ponte, instantes antes de ela morrer.

Mauro Zanatta adaptou o romance do argelino para os palcos e viveu, sob a direção de Flávio Stein, o “juiz-penitente” no monólogo que voltou para a cena nos dias 8 e 9 de março no Teatro Paiol. Acompanhado de uma tela de projeções, com a qual interage aproveitando os belos efeitos da tecnologia, o ator passa a peça toda em cima de um pequeno tablado retangular. Tudo acontece ali. E isso não cansa a atenção do espectador. É nesse espaço que o personagem do profissional bem sucedido profissionalmente e nas relações afetivas se depara com o abismo e inicia sua queda.

O curioso é que o microfone no centro desse espaço dá um toque de stand-up, ou seja, reforça o convite feito ao público de ser interlocutor, ainda que silencioso. Mas ao contrário do stand-up comedy, apesar de o público muitas vezes dar gargalhadas (talvez chistes), o que as falas do ator mais inspiram é a reflexão. As perguntas lançadas pelo personagem de Camus parecem provocar respostas silenciosas na cabeça de cada espectador, além de originar muitas outras perguntas como: Somos todos individualistas? Somos todos culpados e inocentes?

A ironia do personagem revela a miséria de sentimentos egoístas e egocêntricos do ser humano. A forte mensagem de Camus ao leitor na literatura ganha o olho no olho nessa bela adaptação para os palcos. O Paiol contribui para essa conversa íntima e a torna mais prazerosa do que se acontecesse em algum teatro grande de estrutura italiana.

O espetáculo fez parte da programação do circuito teatral em comemoração ao aniversário de Curitiba. Em 2006 o monólogo conferiu a Mauro Zanatta o Troféu Gralha Azul de melhor ator. Foi bonito de ver o Paiol cheio para assistir a uma peça que merece muito ser vista, ouvida, sentida, interpretada, refletida.

Ficha:

Ator Cômico Produções Artísticas
Texto: Albert Camus
Elenco e adaptação: Mauro Zanatta
Direção e composição cênica: Flávio Stein Assistência de direção: Annabel das Neves Fernandes