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| Fotografia da minha autoria |
«Uma vila que se sente»
As lembranças da minha infância estão um pouco turvas, como se o baú onde se escondem estivesse praticamente inalcançável. Porém, há traços que se colam no nosso peito, transmitindo vitalidade. E, por mais que viva, regresso sempre a esse estado saudosista, que me transporta para lugares únicos. Imperdíveis. A Ericeira foi amor à primeira vista, mas a nossa história ficou em suspenso, uma vez que as nossas rotas estiveram desencontradas. Voltei aos 27 e compreendi, em pleno, o porquê de nunca a ter esquecido: porque tem uma luz que nos habita, mesmo quando nos ausentamos por tempo indeterminado.
Esta vila tem um tom azul que tranquiliza. O sossego das suas ruas e o cheiro a maresia fazem-nos levitar. E eu sinto que poderia permanecer aqui, de olhos fechados, a ser acarinhada por uma paisagem digna de quadro. Há um charme muito próprio. E uma imagem descomplicada, com um ritmo lento, na medida em que podemos parar o carro e desfrutar de longas caminhadas. Porque tudo se faz perto, sem necessitarmos de recorrer a transportes. É mesmo uma sorte esta facilidade de acessos, pois, de outra forma, perderíamos de vista edifícios históricos e o contraste com a arquitetura mais moderna. Numa simbiose irrepreensível, a Ericeira sabe crescer sem se perder. E é maravilhosa em qualquer altura do dia, permitindo-nos descobrir os seus recantos diurnos e o mistério que a cobre durante toda a agitação noturna.
Uma das memórias mais nítidas que preservo do nosso primeiro encontro, é a Praça da República colorida de pessoas até tarde e os estabelecimentos abertos a acompanhar esse compasso. Em conversa com locais, percebi que, hoje, a segunda componente já não é bem assim, porque as altas entidades são mais rigorosas. Portanto, por volta da meia-noite, as casas cessam funções. No entanto, o convívio na rua permanece tardio. Caloroso. E de boa saúde. Mas acredito que esta postura tão enraizada seja fruto das inúmeras ofertas, porque há sempre algo a acontecer; há sempre eventos diversos, que tornam a vila movimentada. E, neste ponto, não posso deixar de destacar o Ouriço, que é uma das discotecas mais antigas do país e cuja fachada pintada é um autêntico cartão postal - «realista e poético» - do centro histórico. Embora não tenha entrado, fica o registo de um espaço icónico, de paragem [quase] obrigatória e com uma vista privilegiada.
A Reserva Mundial do Surf, como é já reconhecida, tem atraído inúmeros turistas, o que pode interferir com a tranquilidade tão característica e envolvente. Ainda assim, são questões que, para mim, acabam por ficar em segundo plano, porque continuo a ser capaz de deambular pelo Mercado Municipal e junto à praia, sendo embalada pela música que só aquelas ondas conseguem reproduzir. Por isso, de coração aberto, deixei-me levar pela calçada e fui descobrir o Arquivo Museu, o Largo das Ribas, a Praia dos Pescadores, a Praça do Jogo da Bola, a Capela de Santo António, a Paróquia, a Casa da Cultura Jaime Lobo e Silva [com galeria de exposições, auditório e biblioteca], as casas de artesanato, a Junta de Freguesia, a Travessa do Pelourinho, a Igreja Matriz e os sucessivos miradouros, que nos deixam sem fôlego.
Prosseguindo viagem, foi impossível ficar indiferente à Praia e à Ermida de S. Sebastião. E a toda a extensão de caminho que nos leva a absorver cada linha da paisagem, proporcionando-nos verdadeiros percursos de poesia. Quase a despedirmo-nos desta força da Natureza, cruzei-me com a Villa Ana Margarida: um projeto com quatro unidades hoteleiras [Hotel, Residências, Praia e Natureza], a dois passos do mar, e que parece uma cidade em miniatura. O acesso é exclusivo aos hóspedes, mas é possível vislumbrar parte da sua estrutura extraordinária. Fiquei fascinada com este refúgio em perfeita sintonia e harmonia com a história local, oferecendo uma experiência singular.
A identidade inconfundível, com o mar sempre à espreita, torna a Ericeira num lugar mágico. Mais do que passar, aprendemos a ficar, a observar o seu magnífico pôr do sol e a planear trilhos alternativos. Porque as suas ruas deixam-nos mais leves. Em paz. Talvez me falte mundo, mas há poucos locais que estimulem tanto o sentido de pertença como esta vila, que respira horizonte. Contemporaneidade. E tradição.
[Continua...]
