16
Mar20
Maria do Rosário Pedreira
Rayuela é um longo romance, mas se vai ficar em casa por precaução (o meu caso) e não tiver de trabalhar, aproveite para conhecer através dele o seu autor, Julio Cortázar, que transgrediu a construção de uma história e a própria língua. Cortázar era argentino, mas nasceu na Bélgica (“O meu nascimento foi um produto do turismo e da diplomacia”, disse) e é exemplar como contista, embora Rayuela (que é o jogo da macaca) seja talvez a sua obra mais emblemática. Deixo algumas das suas maravilhosas frases para abrir o apetite:
«Cada vez sentirei menos e lembrarei mais, mas o que é a recordação senão a língua dos sentimentos, um dicionário de rostos e dias e perfumes que voltam como os verbos e os adjetivos ao discurso.»
«Meu amor, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me chame para te amar, amo-te porque não és minha, porque estás do outro lado, nesse lado donde me convidas a saltar e eu não consigo dar o salto […].»
«Aquilo a que muita gente chama ‘amar’ consiste em escolher uma mulher e casar-se com ela. Escolhem-na, juro-te, já os vi fazê-lo. Como se no amor se pudesse escolher, como se ele não fosse um raio que nos parte os ossos e nos faz estacar a meio do pátio.»