No poético curta “Noite de Sexta Manhã de Sábado”, o cineasta Kleber Mendonça Filho escancara a sina do imigrante. Não era esse seu objetivo, tampouco esta é a trama; o filme retrata um amor à distância vivido por um brasileiro que perambula pelas ruas do Recife e por uma ucraniana flanando, solzinho matutino à tiracolo, entre belos ícones urbanos daquela Kiev muito anterior à guerra atual — os dois apaixonados estão unidos pelo telefone, pela conversa relutante e quase monossilábica, pelos gestos simétricos.
Mas é a sina do imigrante porque mostra a verdadeira lonjura, insuperável mesmo em um mundo hiperconectado, entre os lados do planeta: algo que não se mede em quilômetros, mas em horas. É o fuso horário.
Isto eu entendi desde meus primeiros dias de degredo voluntário. Não há aplicativo de mensagens instantâneas nem software de videochamada que possa resolver o fato de que eu passei a jantar enquanto meus amigos ainda estão tomando o cafezinho de depois do almoço. E as minhas manhãs de trabalho passaram a ser de um silêncio quase sepulcral porque conexões afetivas ainda estão dormindo quando o treque-treque renitente do meu teclado já barulha alucinado e compenetrado sob meus irrequietos dedos.
Esta verdade incontornável não apenas me obriga a manter os alertas do celular no modo silencioso, na conformidade do fato de que eu raramente estou acordado na hora de maior atividade dos grupos da galerinha. Ela me afasta, mais que geográfica, semanticamente dos afazeres dos conterrâneos.
Como sói em toda regra, até pelo sofisma da tal necessidade de confirmação da mesma, há exceções — em geral, raras e preciosas, porque é assim que convém para uma exceção. Meu amigo-irmão Z., inveterado notívago desde sempre, costuma cultivar estrelas em tetos escuros enquanto São Paulo dorme. Assim, é minha costumeira interação quando a manhã já avança a passos apressados para o meio-dia aqui na Eslovênia e ainda é madrugada teimosa a despertar o sol lá no Brasil.
É engraçado e paradoxal porque ele, que sempre foi um sujeito de ampla e crítica visão de futuro, tornou-se o meu amigo do passado, sempre contemplando o ontem nesta minha cápsula do tempo imaginária delimitada pela Linha Internacional da Data, a autoritária senhora que ziguezagueia solerte e nauseabunda nos arredores do meridiano 180. Aqui já é amanhã de manhã.
Acho que não preciso fazer nenhum alerta de spoiler em caso de filme envelhecido já vinte anos, mas a cena final de “Noite de Sexta Manhã de Sábado” enquadra o choro da personagem de um dos horários do fuso.
O relógio, impassível, não perde a conta.

Não há aplicativo de mensagens instantâneas nem software de videochamada que possa resolver o fato de que eu passei a jantar enquanto meus amigos ainda estão tomando o cafezinho de depois do almoço. E as minhas manhãs de trabalho passaram a ser de um silêncio quase sepulcral porque conexões afetivas ainda estão dormindo quando o treque-treque renitente do meu teclado já barulha alucinado e compenetrado sob meus irrequietos dedos.