idiotas

Rui Ângelo Araújo
Os Idiotas
O Lado Esquerdo Editora

Não há leituras em branco, pelo que será de elementar honestidade referir que a montante do romance de Rui Ângelo Araújo estão os vários textos que escreveu no jornal Eito Fora e na revista Periférica. A biografia não dá nada à análise literária (nada de bom, pelo menos), mas quem se lembra desses textos chega a Os Idiotas com as expectativas aguçadas. E não se desilude.

Ambientado no território sociologicamente pantanoso a que costumamos chamar província, Os Idiotas é um romance a duas vozes: a de Lúcio, um freak com queda para o álcool que cedo começa a levantar no leitor suspeitas de não ser tão bruto como gostaria, e a de Rute, que surge a meio do romance e cuja intrusão só se perdoa quando é claro que o modo de narrar de Lúcio se baseia em dizer uma coisa e o seu contrário. Dizer que esta é a história de Lúcio a partir de onde ela se cruza com a de Rute é forçar um resumo sem préstimo. O que aqui se conta, disfarçado de conto da província, podia ser a história do mundo, com as suas almas perdidas a falharem vez após vez, com os que tomam conta da coisa pública a aproveitarem as distracções dos falhanços individuais para amealharem um desastre colectivo (o poder político, sobretudo o autárquico, é vergastado com estilo de mestre) e com o mundo a girar indiferente, pronto para receber diariamente novas fornadas de fracassados e de iludidos. Não é o retrato mais brilhante da humanidade, mas é capaz de ser o mais fiel a uma certa faceta onde todos havemos de cair, pelo menos uma vez.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Set. 2013)