Este é o ano das adaptações cinematográficas de muitos romances clássicos e contemporâneos (já falei disso aqui), mas ontem um dos meus autores contou-me que, mesmo quando um filme tem um tremendo sucesso, nem sempre o escritor gosta do que foi feito com o seu livro. O magnífico O Amante (que ganhou o Prémio Goncourt) de Marguerite Duras tornou-se um filme do realizador Jean-Jacques Annaud nos anos 1990. Eu vi esse filme e gostei (claro que o livro é outra coisa), mas a escritora, pelos vistos, detestou-o. Achou que ele traía o romance e que a adaptação era «obscena» em relação à verdade do livro. Conta-se que ela não gostou de ver a sua história (sua mesmo, biográfica) escapar-lhe do controle e que só não fez ela própria um filme do livro logo a seguir porque adoeceu naquela altura. Mas teve discordâncias profundas com o realizador, pois achou que a sua abordagem fora demasiado comercial e que simplificara a complexidade do romance, transformando-o num «melodrama exótico». Porém, longe de ficar parada, tomou a caneta e reescreveu o enredo num livro-guião chamado O Amante da China do Norte. Usou a decepção para criar. Magnífica terapia.