Por Jôsi Ribeiro

Explorando os sentimentos, permeado de uma dose de psicologia, Markus Zusak nos conduz a quatro anos perturbadores na vida de uma garota que roubava livros. Ambientado em 1939, primordialmente, na Alemanha nazista, o livro retrata o ódio, as alegrias, a amizade e os sonhos construídos sob o céu rude de uma cidadezinha alemã. O fato inquietante, porém, residia na nossa narradora: a Morte. A menina lhe escapara três vezes, de modo que a própria ceifeira, de tão admirada, conta-nos as aventuras e desventuras de uma ladra de livros na pátria do nazismo.

O trem. Viajavam a Munique onde logo seriam entregues a pais de criação. A mãe de Liesel era comunista e seu pai, judeu. Era preciso dizer mais? Seu único irmão acabara de morrer, a seu lado. Liesel Meminger sai aparentemente ilesa de seu primeiro encontro com a Morte.  Uma coisa preta e retangular caíra do bolso do casaco do coveiro. O Manual do coveiro. Liesel desejou-o: era o começo de uma carreira ilustre.

O literato celebra nesse romance o poder da linguagem na Alemanha hitleriana. De um lado, o Führer dominando o mundo com palavras, alimentando uma nação de pensamentos cultivados com palavras. Do outro, Liesel Meminger furtando livros, provando que sua existência humana vale a pena. Palavras que constroem e destroem. No entanto, oculto nas entrelinhas, estava o amor caminhando na corda bamba em direção ao sol e manifestado no desejo comum de viver. De sobreviver.

Alterando a linearidade da narrativa e com reflexões intercaladas a esta, a Morte descreve personagens inesquecíveis. “Um punhado de bem. Um punhado de mal. Depois, é só misturar a água”. Essencialmente humanos. Parte de um panorama sombrio, eles tentam sobreviver à miséria unidos pelo medo iridescente da guerra. Inserindo histórias na história, entra em cena um lutador judeu em busca de proteção. A tarefa de esconder um judeu toma proporções epicamente perigosas, mas não o bastante para que os Hubermann, pais de criação de Liesel, não o chamassem à vida alicerçada na crueza proveniente da guerra.

Peça fundamental no enredo, Rudy Steiner é o melhor amigo de Liesel. Transbordando certa “fidelidade” à amiga, ele é o companheiro designado para seus furtos (executados principalmente na biblioteca do prefeito). Unidos pelas “artes da ladroagem”, Liesel e Rudy cimentaram por completo sua amizade. Nesse ínterim, a conversa dos projéteis fazia-se ouvir. Viver era o mais difícil. Nos breves momentos em que as pessoas conseguiam esquecer o que e quem as rodeava, nestes momentos elas conseguiam viver tocando um acordeão, jogando futebol, roubando livros.

Num dos episódios mais dolorosos da Humanidade, a tortura da sobrevivência. E mais adiante Liesel Meminger que se permite observar e compreender a natureza humana. Tecendo o panorama desta época sombria, Markus encanta o público com lirismo e ironia pontuados. Numa última nota da narradora: “Os seres humanos me assombram”. A própria Morte condói-se da miséria humana resultante da violência e da guerra. Sim, meus caros, a Morte tem coração. Mantenha a calma, ela é só um resultado. Quer vê-la? “Olhe no espelho”.

“Amei e odiei as palavras e espero tê-las usado direito.” (Liesel Meminger)