Há alguns anos adquiri o hábito de ler séries de livros em sequência, e a considerá-los como um livro dividido em volumes. Segue-se que tenho bastante dificuldade em discernir onde acaba um dos livros e onde começa o outro. Com Jogos Vorazes não foi diferente. Aproveitei meus últimos dias de férias para lê-lo e, por uma semana, comi, bebi e respirei Jogos Vorazes. Mergulhei na história de Katniss Everdeen, a menina que cresceu cedo demais não só por viver num futuro distópico. E sim, o post conterá alguns spoilers.

Katniss vive no quase esquecido Distrito 12 de Panem, anteriormente conhecida por América do Norte. É, dentre os distritos burocraticamente divididos de acordo com a exploração de suas riquezas naturais e tecnológicas, o produtor de carvão. Não só é um dos menores distritos de Panem, parece estar semi abandonado, como a cerca elétrica que quase nunca está ligada. Lá as regras da repressão da Capital existem, mas a fome e o mercado negro uniram moradores e os mantenedores da paz.

Neste ambiente, Katniss desde cedo aprendeu a tirar o sustento da mata. Aprendeu a caçar com seu pai e, após sua morte, com Gale. Tornou-se mãe de sua irmã Prim no período em que sua mãe se desligou do mundo em luto. Pôs comida na mesa não só de sua família, mas na de muitos moradores do distrito com o produto de sua caça. A supremacia da Capital é representada pelos tais Jogos Vorazes: uma espécie de sacrifício ritualístico no qual um rapaz e uma moça de cada distrito, com idades entre 12 e 18 anos, deve participar de uma luta até a morte, numa espécie de arena, e televisionada como um reality show.

Os Jogos Vorazes são o entretenimento da Capital, com direito a apresentação dos tributos – os sacrificados – ao grande público, a uma equipe de preparadores visuais, um estilista e um mentor. São entrevistados e treinados com o único objetivo de tornarem os jogos um “programa interessante” na TV. Quando Prim é escolhida para participar dos jogos, Katniss prontamente assume o seu lugar. Junto dela, Peeta, o filho do padeiro, é escolhido.

A narrativa em primeira pessoa e as ligações entre os capítulos nos colocam na pele de Katniss e nos impedem de largar o livro. O que no primeiro livro é um passatempo um tanto cruel, afinal, somos colocados na posição de espectadores dos tais Jogos Vorazes, torcendo por Katniss e Peeta como moradores de uma Capital na qual a fome e a luta pela sobrevivência são um conceito distante e muitas vezes distorcido. Com a vitória de Katniss e Peeta e sua volta ao Distrito 12, a história começa a tomar um rumo mais sério e mais politizado.

É neste momento da narrativa que Katniss começa realmente a questionar cada ato seu, dentro e fora da arena, e tudo o que representam para a ditadura no poder. Quando chamados novamente à arena, junto aos demais vitoriosos de outros distritos, fica clara a extensão do poder da Capital, bem como suas fraquezas e sua dependência dos Distritos. Uma rebelião, impensável há anos, torna-se possível por um único ato de desafio. Uma centelha de esperança.

E a guerra começa. Tanto rebeldes quanto a Capital dependem da transmissão televisiva para seus atos de guerra surtirem efeitos. Vemos a diferença entre a guerra disputada e as propagandas políticas com sua guerra ensaiada. Não há maniqueísmos. Sabemos que os líderes da Capital são cruéis e inescrupulosos. Sabemos também que os rebeldes são capazes de crueldade, ironicamente em nome da Liberdade. É feio, e assustadoramente próximo da realidade para deixarmos a reflexão de lado.

Filha de uma família que sabe bem o que é a Guerra – seu pai lutou no Vietnam, seu tio na Segunda Guerra Mundial e seu avô na Primeira Guerra Mundial -, Suzanne Collins comentou à NY Times sobre a classificação de sua obra como YA. Um tema tão sóbrio, tão assustador como a guerra não parece ser um tópico adequado para um livro para jovens adolescentes. Mas a autora pensa diferente, e acabei concordando com ela. Subestimamos muito o poder de análise e compreensão de um adolescente. O tema é recorrente, próximo. Pode e deve ser discutido numa idade jovem.

A história tem declaradamente uma inspiração no mito de Teseu, do labirinto do Minotauro e no gladiador Spartacus. E ainda assim, apresenta uma heroína amadurecida prematuramente, mas ainda jovem, que age passionalmente e precisa de uma figura de referência. Ela busca essa referência em seu falecido pai, em Haymitch, em Cinna e até mesmo em Peeta e Gale. A falta de uma referência sólida a deixa vulnerável, mas ao mesmo tempo a fortalece. O universo de Suzanne Collins foi escrito com a dinâmica de um roteiro e a maestria de um romance. Livro para viciar.