20
Out21
Maria do Rosário Pedreira
Na capa, a rapariga bonita com um bebé loirinho ao colo chama logo por nós. Trata-se, de facto, uma fotografia belíssima dos anos 1940 de uma mãe com o seu primeiro filho, uma criança que ainda não sabia que viria a tornar-se um grande escritor. Falo de António Lobo Antunes, já de olhos notoriamente azuis, mesmo que a fotografia seja a preto e branco, e de um livro recentemente dado à estampa que não devemos evitar. Chama-se simplesmente As Crónicas e é uma colecção das melhores crónicas de Lobo Antunes organizada pela sua editora, Maria da Piedade Ferreira, que reuniu textos publicados na imprensa e ainda nove crónicas inéditas. O trabalho de Lobo Antunes cronista, ainda que durante muito tempo ele o tenha diminuído (chamando-lhe «prositas» e «coisinhas»), é genial e marcante, além de chegar a muitíssimo mais gente do que os seus romances que, como cita a crítica literária Teresa Carvalho no i, serão a sua «catedral de palavras». No entanto, às igrejinhas e capelas não se pode deixar de ir (é mesmo preciso fazer a peregrinação!) até porque, apesar de falarem fundamentalmente da vida do autor, remetem para hábitos e idiossincrasias de um país que é o de todos nós e para a nossa memória colectiva, tenhamos a idade que tivermos. Impossível não nos identificarmos e empatizarmos com estes textos. Obrigada ao escritor e à editora por este volume, prefaciado pelo nosso Presidente da República.
