A vida é um Tango… | Cristina Norton
Numa escrita latina, atenta ao peso dos outros nas nossas vidas, revisitamos as obrigações familiares e o olhar modorrento da sociedade, imbuídos de um sentimento de culpa, típico de quem conhece a força do pecado. O lado solto e corrido da narrativa acolhe as vidas que sobram destes personagens, por vezes, o registo de uma vida inteira cabe nestes contos.
Apesar de um relato muito colado às materialidades do dia-a-dia e às vivências que se advinham ser as da própria autora, existe espaço para uma deriva pelo realismo fantástico, como no conto Carta a Matilde: Não gritou mais. Antes que a voz fugisse de mim, tomei-a com muito cuidado e coloquei-a numa caixa de fósforos que trazia no bolso. Depois, sem olhar para ele, fui-me embora sem fazer barulho.
O insólito desponta no conto A perna direita de Frida Kahlo. A pintora mexicana é retratada numa resumida nota biográfica, com relevo para a sua relação com o marido, o pintor Diego Rivera, que aqui surge nas palavras de Frida. A perna doente, consequência da poliomielite, marca a vida da pintora. Frida conservou-a durante grande parte da sua existência, acabando por a perder. Quando faleceu, desabafou “espero nunca mais voltar”. Essa última viagem, segundo a autora, levanta uma questão: Não sabemos se a perna amputada se lhe juntou no seu último voo ou apodreceu no meio do lixo hospitalar. A pergunta ficará sempre sem resposta: Onde está a perna de Frida Kahlo? Se acreditarmos que a vida nos faz inteiros, podemos responder não ser o nosso corpo quem nos devolve a plenitude. Talvez seja esse o ADN destes contos, que nem todas as palavras, as que surgem escritas, as que são recitadas ou cantadas, cumprem o ciclo de uma vida como a letra de um tango. Do que se viveu, nada se perde.
Partiu da mesma maneira como tinha vivido, saindo das nossas vidas sem se despedir, como saíra tantas vezes quando decidia mudar de rumo.