Uma das características que acho mais fascinante da literatura é o seu altíssimo potencial de síntese de dilemas humanos.
Por vezes, o que levaríamos teses e mais teses filosóficas para compreender um bom escritor consegue sintetizar em algumas linhas, em poucos diálogos ou comportamentos.
Isso quando não consegue antever coisas que só acontecerão muito tempo depois de sua escrita. Escritores são um tipo de oráculo, capazes de atravessar a janela do tempo e ler no hoje o que faremos no amanhã.
Assim o fez, por exemplo, Michell Houellebecq em seu livro “Submissão”, que já comentei no meu canal do Youtube. E assim também o fez Philip Roth em seu livro “Pastoral Americana”. E você não imagina o quanto essa obra tem relação com uma série da Netflix, um bilionário americano e todo um debate que tomou conta de nosso tempo.
ENTENDENDO O CONTEXTO
No romance Pastoral Americana, Philip Roth conta a história do Sueco, um personagem modelo, que simboliza todo o ideal de perfeição do American Way of Life. Atleta primoroso quando jovem, empresário bem sucedido quando adulto. Casado com uma quase Miss-América. Pai…
Essa harmonia porém é rompida pela figura da filha, uma menina feia e gaga, total oposto do que era aquela família de margarina. Eis que essa menina – lá pelos seus 16 anos – envolve-se com um grupo político e explode uma bomba na pacata cidade onde vivem. Matando uma pessoa e mudando para sempre a vida de seus pais.
Esse livro é de 1997, portanto, quase 30 anos antes do lançamento da série Adolescentes, na Netflix. Nela, um jovem de 13 anos é acusado de assassinar uma colega. O pai tem dificuldade de aceitar que seu filho tenha feito aquilo, mas, conforme a trama avança, descobrimos que o menino associou-se a um grupo e é levado aos atos violentos por toda carga ideológica que recebeu.
O que liga estas duas histórias é o modo como dois adolescentes foram cooptados por ideologias para agirem de acordo com um propósito. É fácil observarmos e reconhecermos os perigos disso quando existem casos de violência envolvidos. Mas considere agora por outro ângulo.
O jovem da série adolescentes é cooptado por uma corrente chamada “incel”, que envolve misoginia e ressentimento contra mulheres.
Merry, a filha do Sueco em Pastoral Americana, por sua vez, é tragada por um pensamento de contra-cultura, levada a enxergar seu próprio país (os Estados Unidos) como vilão e a tentar pará-lo à força.
Em essência, qual a diferença entre os dois?
Encher a cabeça de adolescentes com ideias extremas é perigoso independente da vertente que você adotar.
A EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA
Existem muitos livros sobre o cérebro adolescente. Dentre eles, um clássico é a obra de Daniel J. Siegel, “O cérebro adolescente”, onde muita coisa é dita sobre a cabecinha desse pessoal, mas pra nosso interesse há um foco importante.
A adolescência é reconhecida como o período que vai de 12 a 24 anos e este não é um número escolhido de forma aleatória. Acontece que é entre esta idade que o cérebro assume um comportamento muito diferente daquele que teremos na vida adulta. O motivo principal disso é que várias estruturas cerebrais e cognitivas estão em formação, em um processo similar ao que acontece com o próprio corpo desses moleques. Todo mundo já foi adolescente e lembra de como crescemos desordenados. Se não lembra, saia na rua e observe como os braços deles por vezes parecem tocar na canela, de como andam esquisito, como a voz muda em segundos. Isso é adolescência! Acontece fora e dentro também.
Um dos principais elementos dessa fase é que tudo fica exagerado. Daí que nossa tendência humana natural por socialização atinge um pico extremo na adolescência.
O guri para de dar importância aos adultos, aos pais, e passa a focar nos pares. Tudo que querem é pertencer, é ter um grupo pra chamar de seu.
Isso ainda é mais grave quando pensamos que o córtex pré-frontal só estará plenamente desenvolvido lá pelos 24 anos, ou seja, na fase adulta.
Essa parte de nome pomposo – CÓRTEX PRÉ-FRONTAL – é responsável, entre outras coisas, pelo planejamento e tomada de decisões. Isso não significa apenas que o adolescente tem mais tendência de tomar decisões malucas, erradas, tronchas, mas que seu senso de futuro também está prejudicado.
Ele não consegue antever as consequências do que está fazendo e no que está se envolvendo. Daí existir todo um discurso e cuidado da sociedade em torno dessas pessoinhas e de pais andarem sempre preocupados com o que seus filhos andam consumindo. Intuitivamente a humanidade já tinha percebido isso. Tanto que na antiguidade a idade mínima para ser funcionário público era aos 25 e cargos de maior relevância só aos 30.
Considerando o que já falamos anteriormente, da intensidade das coisas, de como são bichos ainda mais sociais do que adultos, começamos a entender melhor o problema.
Na busca por pertencimento, adolescentes topam qualquer parada. Isso aparece amplamente na literatura, aparece no cinema. A cena que desencadeia todo o filme Gran Torino é de um adolescente desafiado a roubar um carro – um Gran Torino – da garagem do protagonista.
A DROGA IDEOLÓGICA
Se isso já é perigoso quando envolve crime e drogas, as ditas más companhias que mainha tanto alertava, imagine agora quando envolve um mal silencioso: a ideologia!
Um filme alemão chamado A ONDA retrata uma experiência real em que um professor de filosofia é questionado por alunos sobre a impossibilidade de ideologias autoritárias como os ISMOS do século XX emplacarem nos dias de hoje. A partir de então, ele começa a aplicar métodos de sequestro cognitivo com a turma e em pouco tempo eles começam a formar uma turba ideológica barulhenta e perigosa.
Ok, todos sabemos e entendemos o perigo. Todos também concordamos como isso é perigoso e duvido que haja pessoas capazes de afirmar que isso é bobagem ou que deveríamos deixar a molecada decidir por si quando o exemplo é com essa ideologia em específico: os ismos lá da Europa na Segunda Guerra.
Mas e quanto a outros ISMOS tão nocivos quanto?
Ora, sim… sim… estou falando de outros que eu posso falar abertamente aqui sem correr o risco de ser vetado pelo algoritmo: COMUNISMO. Essa ideologia que tem até gente abertamente se dizendo filiada mas que em seu manifesto inaugural várias vezes ressalta a necessidade da violência.
Essa mesma ideologia que prega ódio às classes dominantes e que alimentou terroristas como Daniel Ortega, Carlos Marighella, Che Guevara… homens que muitos glorificam como heróis, mas que trazem no currículo uma mancha de assassinatos, inclusive de muitos civis.
Por que esta ideologia em específico não tem problema? Por que normalizamos a TV nos falando das belezas revolucionárias? Qual o motivo de apoiamos escolas nos ensinando sobre o amor da revolução comunista?
Ao mesmo tempo, qualquer menção a Jesus Cristo nestes mesmos contextos vira tema de enorme querela e discussão: não pode, um absurdo! Violação da liberdade individual!
O pai da pequena Merry, a menina de Pastoral Americana, reprime a filha quando ela começa trazer santos pra casa por influência da tia católica. No entanto, deixa a filha livre quando ela começa a falar contra seu país, contra os empresários, contra o próprio pai.
Ela explode uma bomba, mata um homem. Depois disso, descobrimos mais à frente que mata ainda outro e outros. Os seus ideais eram nobres, claro! A Serpente nunca declara abertamente suas intenções.
Seja com ideologias nefastas de direita ou de esquerda, o fato é que elas batem como uma cola nas mentes imaturas e encontram na necessidade de socialização o terreno perfeito para o cultivo e proliferação. Por vezes, o menino só quer um pouco de atenção. Só quer fazer parte daquele grupo, só quer uma namoradinha. Só desejar ser o melhor aluno da turma, tornar-se amigo do professor descolado. Então, a ideologia chega e corrompe completamente sua natureza.
O DELICADO TEMA
E já que toquei na ferida, vamos aprofundar um pouco mais… se sabemos que crianças e adolescentes não tem capacidade fisiológica de tomar decisões, se sabemos que algo que decidem agora pode mudar completamente amanhã ou depois, porque relaxamos a mão e naturalizamos até campanhas que visam sequestrar cognitivamente nossas crianças?
Voltemos à introdução deste vídeo… quem é o bilionário americano e o que ele tem com tudo isso?
Elon Musk não é um personagem ficcional, mas ocupa tanto o espaço das notícias que sua vida começa a tomar conta do imaginário popular. É notório como o empresário após 2020 assumiu uma verdadeira cruzada contra aquilo que ele próprio chama de Vírus Woke. E essa guinada aconteceu após o episódio em que seu filho, então com 16 anos, resolveu fazer uma transição de gênero e tornar-se mulher.
Woke não significa Trans e, a princípio, não é disso que Elon fala quando usa a palavra vírus. Um termo conveniente, devemos dizer, ainda mais quando pensamos no conceito de “Contágio Social”. É sabido em psicologia, e tenho um vídeo no meu canal onde comento sobre o tema enquanto falo sobre o livro “A Geração Ansiosa”, que existe uma característica de nosso cérebro de replicar comportamentos. E se isso acontece até com a depressão, porque haveria de ser diferente com as ditas orientações sexuais (hoje propagadas como “orientações de gênero”)?
Esse assunto é abordado neste outro livro: O cérebro que transforma. Onde o autor explica em detalhes essa capacidade do cérebro em replicar comportamentos e de como há dados sobre isso repetir-se também na sexualidade.
Vivemos em uma sociedade livre e ideias podem ser propagadas à vontade, ao menos algumas, já que outras tendem a ser reprimidas com rigor.
No entanto, do mesmo modo que permitimos a circulação de bebidas e entendemos sua necessária limitação para adolescentes, porque liberamos completamente as ideologias? Ou ainda mais grave: por que, quando se trata de determinados fatores, chegamos a proibir uma contraofensiva, muitas vezes atando as mãos de pais e igrejas?
Não estou afirmando, é preciso sempre deixar isso explícito nos dias de hoje, que o que aconteceu com a filha de Elon Musk é fruto somente de qualquer influência ideológica. Não estou também condenando ou discriminando qualquer pessoa. Estou apenas erguendo um necessário questionamento sobre o quanto devemos deixar crianças e adolescentes suscetíveis à influência de grupos políticos que utilizam-se dessa pauta.
Como um bom escritor, Philip Roth não apenas leu o seu tempo como conseguiu assustadoramente ler o futuro. Uma série como Adolescentes nos traduz o mesmo mal da filha do Sueco, por uma nova perspectiva. A violência externa, aplicada a alguém e movida por uma ideologia.
Porém, enquanto muitos leem estas páginas e apenas enxergam a bomba que mata pessoas, esquecem as bombas explodindo em cada lar e destruindo famílias.
Destruindo, muitas vezes, o próprio revolucionário mirim.

