
«É escuro e largo, tão puro, mas amargo»
a voz do Zee ecoava entre os nossos silêncios
e os nossos olhares cruzam-se sempre que o ouvíamos a cantar
no meio do delírio vi-me lá*
talvez por lhe reconhecermos a escuridão de um passado que já não atormenta
que somente nos desperta
que nos mostra que tal como ele procuramos abrigo e o mundo é casa*
por isso continuamos a navegar
mesmo em contramão
recolhemos todos os pedaços que são casa
que nos entrelaçam a uma paz mais certa e menos utópica
e entre promessas que nos embalam
sem dívidas para saldar de um tempo que fazemos por esquecer
edificamos uma rota nova
sem lágrimas, sem mágoas, sem tormentos
repara como ainda escrevo no plural
porque ainda espero por quem já não está cá
porque eu largo o mundo e fica o teu abraço*
mas a vista do meu quarto já não te contempla
das peças desiguais que fui acumulando
pela ausência, pela descrença, pelo vazio
aprendi a erguer alicerces de um lar onde não mais reconhecerei
aquilo que fui
mas mergulho madrugada dentro
e mantenho-me à tona, a respirar
este ar gélido de um delírio onde fiz morada
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* versos da canção International Bizz, Van Zee