Divulgação: Pôster do filme Starker (1979)
Como posso saber o nome daquilo que desejo? Como posso saber se, no fundo, não desejo o que desejo? Ou que, digamos, não desejo de fato o que não desejo? São coisas efêmeras, basta dar-lhes nome e perdem o sentido, desvanecem.
Andrei Tarkovsky, “Stalker”
Isabela Nunes*
A Zona tem rondado os meus recôncavos mentais já há alguns meses. Primeiro, por eu ter passado algum tempo no universo dos Irmãos Strugatsky, em seu famoso romance Piquenique na Estrada. Nele, alienígenas misteriosos vêm à Terra, sem motivo nem explicação, e partem, sempre silenciosos, sem deixar rastros. O lixo deixado por eles dá origem a regiões especiais, as Zonas, em que as leis da física se dobram e se tornam traiçoeiras, mas em que as tralhas alienígenas, agora valiosíssimos tesouros para os humanos, podem ser garimpadas e levadas para o mundo exterior por quem quer que seja corajoso o suficiente para enfrentar seu mistério. Essa coragem é especialmente cultivada pelos stalkers, homens embrutecidos que estão a meio caminho entre contrabandistas e guardiões da Zona, irremediáveis mediadores entre o interior do mistério e o exterior frio do mundo normal.
Segundo, por ter passado ainda mais algum tempo nesse universo, muito depois de ter fechado o livro, através de Andrei Tarkovsky, que viu nas páginas dos irmãos russos o valor incalculável que tinham e pôs-se a contar a história de quatro homens a desbravar sua versão da Zona em um de seus filmes mais conhecidos, Stalker (1979).
A Zona dos Strugatsky, ao mesmo tempo lixo e tesouro, é o que esvazia a ciência de suas verdades e mostra sua impotência diante da grandeza dos mistérios do mundo; é também o que tira o homem de seu pedestal humanista, uma vez que ele inegavelmente não é mais o único no universo e não pode nem mesmo se consolar com narrativas de heroísmo, porque dez minutos depois do mundo ter mudado para sempre com a descoberta misteriosa de algo inexplicável, a vida continua, os homens são os mesmos, a ordinariedade retoma seu caminho e tudo permanece igual. Os cientistas olham a Zona do alto dos nomes difíceis que criam para explicá-la, sem nunca entendê-la, enquanto os stalkers, com seu misticismo e superstição, entendem-na profundamente, respeitando a verdade muito simples de que nunca conseguirão explicá-la.
O triunfo de Tarkovsky, em Stalker, foi conseguir compreender esse mundo e enxergar nele uma dimensão que não era óbvia no texto original. Acho que foi Fredric Jameson quem disse — mas confesso que nem lembro mais se foi mesmo algo que li em algum lugar ou se sonhei que li — que interpretar um texto é explicar o que te encanta nele e como ele faz a mágica que faz. Embora ele falasse sobre crítica, acho que esse deveria ser o ponto de partida de qualquer adaptação, ou mesmo de qualquer relação que a gente estabeleça com uma obra de arte: partir daquilo que só nós, com nossa miríade de experiências e impressões singulares, conseguimos ver, aquilo que a torna unicamente especial, aquilo que nela rasteja pela parte mais profunda de nós mesmos e acorda mundos de pensamento e de emoção já há muito adormecidos em nossas carcaças secas. Caio Gagliardi, em um belíssimo texto sobre a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, diz que “é o olhar, ou a arte de olhar, que encaminha o sentido das coisas”. Acredito piamente que interpretar bem não é nada mais que cultivar a arte de olhar, esse olhar tomado de uma atenção e cuidado que em verdade são parecidíssimos com amor. É esse olhar-amor que Tarkovsky põe em movimento ao compor sua própria Zona, ao mesmo tempo única e reaproveitada do que já antes existia (algo que, ironicamente, condiz muito com a lógica do romance dos irmãos russos).
Mais até do que os Strugatsky, Tarkovsky chama atenção para Zona como um deserto árido, abandonado e poluído em que homens secos encontram sua riqueza. Enquanto os Strugatsky focam mais no esvaziamento do que em sua contraparte, Tarkovsky elege precisamente esse lugar contraditório para falar de desejo e de fé, que não é bem fé, e sim esperança.
Ao redor da Zona, o mundo todo está esvaziado, povoado de homens que não acreditam nem em acreditar, cujos desejos são um segredo até para eles mesmos, cuja realidade se revira a toda hora, cujo espaço nunca é só um espaço, mas vários espaços em transição, cujos ouvidos são dominados por um som metálico e arrastado, cujo tempo é alongado e diminuído tantas vezes que perdeu o sentido, cuja cor é cobre, a cor do cansaço, da covardia, do subjetivo entediado. Há um único lugar em que a vontade ainda existe, em que o ar é puro, em que o verde pulula, em que o metal se transforma de novo em paisagem inútil, incorporado e devolvido à natureza.
Mas mesmo esse lugar é inalcançável. Ele exige sacrifícios, e dor, e infelicidade. Só aceita aqueles que desistiram do mundo lá fora. No fim, pode ser que ele nem mesmo exista, que seja mais uma das peças pregadas pelo subjetivismo intenso e cansado de um mundo múltiplo, que muda a toda hora. Quer exista, quer não, ele não pode nunca ser um mundo dentro de outro; é um mundo à parte, insular, dissociado de todo o resto. Escolher acreditar nele também é, de certo modo, parar de acreditar, porque significa abdicar de todas as outras coisas para poder ser aceito. Significa abandonar o mundo do aqui e agora, e as pessoas que existem nele, pra viver apenas pela esperança desse lugar em que os desejos existem, em que são atendidos, adivinhados, presenteados. Um lugar em que não é preciso saber as verdades e os impulsos guardados a sete chaves no coração, porque o próprio lugar é a chave. Um verdadeiro bolsão em meio ao espaço vazio em que entrega significa não dar nada a ninguém, porque cada pedaço de você tem que se doar ao desejo inominável, à fé sem amarras, ao poço da esperança.
A Zona de Tarkovsky é um espaço ao qual nós poderíamos voltar um milhão de vezes, sem nunca saber se vale a pena, sem nunca conseguir nem explicá-la nem compreendê-la, em um exercício sisífico, interminável e inútil. Quem não acredita, está morto. Mas quem acredita, também. O vazio do mundo é tão grande que desejo demais e desejo nenhum acabam por ser a mesma coisa, porque não sabemos o que desejar significa. Mimetizando a Zona, Stalker é um poço sem fundo que traz esperança ao mesmo tempo em que torna o ato de esperar inútil; é lindo e devastador; enche o coração com mágica e o destrói com cobre.
Tarkovsky e os Strugatsky desenham sentimentos universais e dão-lhes espacialidade. A Zona, seja símbolo de vazio ou de esperança, encerra todo o enigma do mundo e da vida, e o encontro com ela delineia o ápice do que eu imagino que arte (e se engajar com arte) deva ser. O coração à mil, a cabeça também. E a vontade de mergulhar ainda mais fundo no poço sem fundo, correndo sem medo o risco de nunca sair, de se perder do exterior pra sempre nesse espaço de desejo imaginário. A vontade de nem olhar para trás; todo o olhar preenchido pela bizarra esperança apaixonada de que só ver é o suficiente para dar sentido às coisas. A vontade de nem subir pra pegar ar. Mas de ficar, mesmo com o sacrifício, e se doar por completo à magia daquilo que não existe, e nem pode existir, no som metálico do mundo real.

*Isabela Nunes é pesquisadora da USP. Escreve Mensalmente.