Bem, para começar, esclarecer que não estive a ler a obra na íntegra. Já a tinha lido quando era aluna do 3º ciclo. Mas volta não volta, ano após ano, volto a pegar nesta grande epopeia para a trabalhar com os meus alunos durante as explicações de português.
Aquilo que mais me atrai, é que por entre cada estrofe, encontramos aqui e ali referências da nossa própria História, umas vezes bem explícita e, noutras, mais escondida.
Grande marco da nossa história literária, Camões é "o Poeta" português. Viveu durante o século XVI e escreveu a primeira epopeia portuguesa, publicada em versão impressa (1572), "no período literário do Classicismo, ou Renascimento tardio, três anos após o regresso do autor do Oriente, via Moçambique."
"Os Lusíadas" terão começado a ser escritos provavelmente em 1553, qundo Camões esteve em Goa, Índia. A obra é antropocêntrica, ou seja, valoriza o "ser humano" e a sua "racionalidade." Um outro aspeto importante é que além deste antropocentrismo, Camões acaba por mostrar ao longo de "Os Lusíadas" um povo "europeu impermeável à cultura do Oriente," e que se mostra de certa forma "incapaz de compreendê-la."
Quanto à métrica e à rima é de um rigor formal que a muitos espanta. O poema é constituído por 10 cantos divididos em 1102 estâncias (estrofes). Cada umas destas estâncias é composta por 8 versos (oitava) perfazendo assim um total de 8816 versos. Cada verso tem 10 sílabas métricas. Uma outra caraterística é que estes versos são predominantemente heróicos, ou seja, têm acentos rítmicos nas 6ª e 10ª sílabas. Encontramos também alguns versos acentuados nas 4ª, 8ª e 10ª sílabas e por isso são chamados sáficos. A rima apresenta um esquema fixo, com os seis primeiros versos em rima cruzada (ababab) e os dois últimos em emparelhada (cc), que ganha o nome de "rima real" ou "rima camoniana."
Assim começa este poema:
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
Logo nestas primeiras linhas, o poeta anuncia que vai contar a história das grandes navegações, destacando desde logo o povo português, como sendo lutador, corajoso, valente e pioneiro.
No que se refere à sua estrutura interna, "Os Lusíadas" dividem-se em quatro planos: "Proposição", "Invocação", "Dedicatória" (os quais ocupam as primeiras dezoito estâncias) e "Narração" (que compõe o corpo do poema propriamente dito). Acrescente-se aqui o Epílogo (estrofes 145 a 156 do Canto X) no qual "o poeta lamenta mais uma vez as injustiças que o Reino lhe terá cometido." No Epílogo, Camões vem reforçar a "dedicatória da obra ao jovem rei D. Sebastião" que já tinha referido no início do poema. Toma aqui a liberdade de "como homem experiente da vida e dos conhecimentos," dar ao jovem rei "alguns conselhos: que se aconselhe com os melhores, governe com justiça," e que "premeie apenas e sempre quem merece." Ao rei pede também que "lute com bravura e inteligência para expandir Portugal e a fé cristã."
Nestes planos encontramos quatro temas. A "Viagem" onde se encontra a ação central da epopeia propriamente dita, o "Plano Mitológico", em que "são descritas as influências e as intervenções dos deuses da mitologia greco-romana na ação dos heróis", a "História de Portugal" e, por fim as consideraçõs do poeta onde Camões apresenta a sua reflexão pessoal, referindo-se a "si mesmo enquanto poeta admirador do povo e dos heróis portugueses."
Podemos de facto afirmar que no que se refere ao enquadramento da "Viagem" esta nos conta a ida da Armada portuguesa comandada por Vasco da Gama até à Índia, sendo que esta viagem vem representar todas as viagens feitas pelos portugueses. A partida de Lisboa é referida no Canto V numa analepse, uma vez que a narração propriamente dita começa pela passagem da armada pelo Oceano Índico. Podemos assim dizer que a "narrativa começa in medias res (ou seja, parte do meio da ação para então inserir todos os acontecimentos)." É "Vasco da Gama" o narrador desta parte da epopeia, contando a sua ida à Índia "ao rei de Melinde." Se considerarmos "Os Lusíadas" como uma obra renascentista, não é de estranhar que este siga "a estética grega que dava particular importância ao número de ouro. Assim, o clímax da narrativa, a chegada à Índia, foi colocada no ponto que divide a obra na proporção áurea (início do Canto VII)."
As ações secundárias são encaixadas na ação central, como são os versos onde se referem outros aspetos da História ou as referências feitas a outras epopeias.
Também é percetível que o destino dos "Heróis" no Oriente está a ser discutido pelos deuses, sendo "convocado o Consílio dos Deuses (estrofes 20 a 41) para decidir se os portugueses devem ou não conseguir alcançar o seu destino." Júpiter defende que devem proteger os Lusitanos, mostrando-se contra os "mouros, castelhanos e romanos", enquanto Baco acha que os seus próprios feitos no Oriente podem ser esquecidos, mostrando "ciúme e inveja," pelos portugueses e acaba por ser o "responsável, direta ou indiretamente, por todas as ciladas" que os heróis vão enfrentando. Na discussão entre os deuses, Vénus compara o povo português aos romanos na "coragem" e sabe que este sempre celebrarão os deuses por onde quer que passem. "Camões era um homem de paixões, que também celebrava o amor na sua lírica, e talvez por isso tivesse escolhido a deusa romana desse sentimento para patrona do seu povo."
O povo português, marinheiro e herói destemido, acaba por ser "protegido por determinados deuses e perseguido por outros até que, por conta de sua valentia, coragem e persistência, supera as armadilhas e consegue chegar à terra distante, onde funda novo reino." Isto não vem de todo retirar do poema a defesa de "uma fé única no Deus cristão" que é defendida ao longo da obra.
Espero que tenham gostado. Obrigada pela vossa leitura!
Fontes:
https://notapositiva.com/os-lusiadas/#
https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Lus%C3%ADadas
AIDAR, Laura, https://www.culturagenial.com/os-lusiadas-de-camoes/