Não tive a melhor experiência de leitura deste livro (tanto que o comecei a lê-lo no Verão passado como podem ver pela foto) e acho que a culpa está toda na capa. A capa diz “melhor livro de memórias dos últimos 50 anos segundo o The New York Times”. Ora, isto cria expectativas bastante elevadas sobre aquilo que vamos ler.
«Vínculos ferozes» foca-se na relação entre uma filha e uma mãe, já idosa, que juntas percorrem as ruas de Manhattan e recordam o passado. Adorei a fase inicial do livro em que as duas falam sobre o tempo em que viveram num prédio em que toda a gente se conhecia e sabia da vida de toda a gente:
Vivi naquele edifício entre os seis e os vinte e um anos. Tinha vinte apartamentos, quatro por piso, e do que me lembro é de um prédio cheio de mulheres. Mal me lembro dos homens. Eles estavam por todo o lado, claro - maridos, pais, irmãos - mas só recordo as mulheres. (…) Argutas, voláteis, analfabetas, moviam-se como personagens de Dreiser. Havia anos de calma aparente, e depois, de súbito, uma irrupção de pânico ou desnorte: duas ou três vidas marcadas (porventura estragadas), e o tumulto amainava. E eu - a rapariga a crescer no meio delas, a ser moldada à imagem delas -, eu absorvia-as como absorveria clorofórmio num pano encostado à minha cara.
A partir daqui, muito do livro foca-se na morte do pai de Vivian e na forma como mãe e filha criaram uma relação de co-dependência peculiar. Elas não conseguem viver uma sem a outra, e insistem em fazer caminhadas a relembrar o passado. Mas basta a mãe fazer algum comentário acutilante e a relação degrada-se. Não conseguem estar uma sem a outra, mas também não conseguem estar muito tempo juntas.
É um livro extremamente bem escrito (e o audiobook também é bom), mas, às tantas, cansei-me um bocadinho desta relação mãe-filha e não me consegui interessar muito pela conturbada vida amorosa de Vivian. Enfim, achei que a história, apesar de boa, se tornou demasiado repetitiva e aborrecida e ouvi as últimas páginas a custo.
