Fotografia da minha autoria

«Não coloque limites nos seus sonhos, coloque fé»

A manhã, que eu desejava que fosse célere, tardava a passar, como tantas outras nos últimos meses. Tentava manter a cabeça focada nas aulas, mas o meu pensamento só divagava para o momento em que ouviria o toque de saída. Então, aí sim, poderia sentir o peito descomprimido e aquela sensação calorosa de regressar a uma casa onde pertenço.

Todos os dias, após abandonar o recinto escolar, subia para a minha bicicleta cor de amêndoa e pedalava até ao café do Senhor Vasco, bem no centro da cidade. Quando me via aproximar, preparava um saco de cartão com a sande do dia, uma garrafa de água, uma peça de fruta e um miminho doce. Nunca lhe disse, mas sentia-o como um avô. Era uma espécie de estrela no meu caminho, discreta, mas cintilante, posicionada no espaço certo, para não me permitir cair. Nem desistir.

- Não te queres sentar? - Perguntava-me, sempre em cuidados.

- Já vou atrasada! - e despedia-me com um sorriso, que ele retribuía.

E, de volta à estrada, apressava-me até ao Centro de Estágio, ciente de que toda esta dedicação seria recompensada. Porque, embora seja uma rapariga num ambiente maioritariamente masculino, este é o meu sonho. Será o meu destino. E nada abalará a minha vontade de pisar o relvado de um estádio que sei de cor, com o emblema do meu clube sobre o peito, defendendo-o e honrando-o. Afinal, é para isso que trabalho diariamente, conciliando a escola com os treinos - e com os jogos ao fim de semana, numa competição distrital de equipas mistas. Mas, creio, chegará o dia em que as equipas femininas serão uma realidade, com os mesmos direitos e grau de importância. Escrevam o que vos digo!

Passo o portão automático mesmo a tempo de acompanhar o grupo numa refeição de reforço. E é nestas alturas que respiro fundo e percebo que não trocaria este ritmo frenético por nada. O treinador aproveitou para nos alertar acerca da dificuldade do adversário e sobre a intensidade do treino. E eu bebo-lhe cada palavra de incentivo. Já em campo, entrego-me em pleno a cada exercício: de força, de destreza, de resistência, de camaradagem. Para ser cada vez melhor. Para ajudar os meus companheiros. Para alcançar a vitória. Estamos no mesmo barco. E remamos numa direção comum. Por isso, o futuro há-de ser luminoso.

A bola de hexágonos prateados brilha na linha lateral. E o meu coração dispara de adrenalina. No parque exterior, a minha bicicleta aguarda o meu regresso. Mas, por agora, vou concentrar todas as minhas forças na partida final. E voar. Porque, aqui, sou a minha melhor versão.