DETALHE. A restauração de Santa Catarina, de Alexandria, um dos quadros da exposição ‘Descobrindo Caravaggio’, do Thyssen-Bornemisza National Museum, na Espanha

Crítica de arte experiente, María Gainza mescla erudição do vasto repertório com afeto, pontuando obras que marcaram sua vida

Laura Pilan

O Nervo Óptico, da escritora e crítica de arte María Gainza, apresenta uma série de textos que refletem o impacto direto, inevitável e, frequentemente, violento que a obra de arte provoca em nossas vidas. Muitas vezes, os episódios expostos adquirem um tom ensaístico. Outras, um modo de narrar bastante lírico. Quase sempre, as pinturas citadas e descritas de forma instigante possuem uma profunda conexão com acontecimentos do passado da autora – aqui, o livro se torna autobiográfico. Ao mesmo tempo, os quadros são situados em uma linha do tempo muito mais ampla: os relatos adquirem cunho histórico, pintados entre guerras e traumas. Ao fim, Gainza transforma suas páginas nos corredores de um museu ou de uma  galeria de arte.

Em um primeiro momento, os títulos, as menções e as citações são um fator de desnorteamento. Mas nada é nomeado ao acaso: cada quadro apresentado está intimamente ligado a um episódio da vida da autora ou de um conhecido. Um acontecimento histórico está atrelado a uma pintura que, de alguma forma, faz parte da vida de alguma das pessoas que cruzou o caminho de Gainza. O conjunto de referências – composto por nomes de pintores e títulos de pinturas, romancistas, poetas e cineastas – vai além da condição de simples catálogo e se transforma em algo muito maior e mais instigante: um valioso repertório. Trata-se de um livro que, para ser lido, pede a curiosidade de um estudioso. Com o devido entusiasmo, o leitor não recebe apenas um punhado de nomes, mas uma teia complexa formada por fatos, pessoas e, principalmente, arte.

O Nervo Óptico valoriza o ato de observar uma obra de arte e, consequentemente, a reação que é fruto dessa observação. Ao interligar um largo número de experiências às pinturas e esculturas expostas, a autora deixa claro que é impossível contemplar uma peça sem que ela extraia uma resposta – seja positiva ou negativa. Não é simples definir de que ordem é essa reação. De maneira muito perspicaz, Gainza se recorda de Stendhal: ao visitar a Basílica de Santa Croce, o autor teria descrito suas emoções e seus efeitos físicos como um abalo violento – “(…) meu coração palpitava forte; sentia que a vida se esgotara em mim, e eu caminhava com medo de cair”, dissera ele. Se, como afirma a autora, a arte está na distância entre o que nos parece bonito e o que nos cativa, ela pode escapar facilmente do âmbito do que pode ser descrito. É justamente parte de sua natureza – e de sua força – ser indescritível, em certa medida. Sob as lentes de María Gainza, a arte se torna inefável.

Mark Rothko (1903-1970); A Cor e o Silêncio | SALA 17: Sentir, Pensar,  Criar...
O vermelho e o negro, pintura matizada de Mark Rohtko

Em certa medida, o que Gainza procura demonstrar em muito se assemelha ao que Maurice Merleau-Ponty já discutia no século XX. Opondo-se à crença de que a impressão e a percepção eram auxiliares precários da razão ou apenas empecilhos, o filósofo francês conjecturou que a nossa existência no mundo é influenciada e tocada pela percepção que temos das coisas e pela maneira com que elas chegam até nós pela sensibilidade. Trata-se do primeiro – e imediato – contato do indivíduo com os objetos e com os outros, estabelecendo uma relação sensível entre o sujeito e a realidade exterior. A percepção é vista como a mediação essencial para que o homem sinta o mundo e o vivencie de maneira direta. Em uma de suas principais obras, chamada de O Olho e o Espírito, Merleau-Ponty se dedica a evidenciar a relação recíproca entre a materialidade do corpo e as impressões captadas. A leitura que María Gainza faz dos episódios da vida e das pinturas toca diretamente em algo que Merleau-Ponty escreveu: “Qualidade, luz, cor, profundidade, que estão a uma certa distância diante de nós, só estão aí porque despertam um eco em nosso corpo, porque este as acolhe”.

A autora parece completamente consciente disso. Como Stendhal, Gainza reconhece e busca entender o impacto causado pela arte tanto em sua mente quanto na materialidade de sua carne. E a arte aparece e reaparece no trivial, no banal, no ordinário e no comum. Os vermelhos que desaparecem em preto de Mark Rothko chamam a sua atenção no pôster pendurado na parede do consultório oftalmológico e no vestido da prostituta que visitava os doentes no hospital que, coincidentemente, era ocupado por seu marido. Quando percebidos pela autora, os detalhes não são mais insignificantes. Gainza vê a arte nos outros e nas coisas como também enxerga em si mesma. Ela está em La ninã sentada (1929) de Augusto Schiavoni, assim como diversas outras pinturas são partes inerentes, intrínsecas e essenciais de nossas vidas.

Como o título enfatiza, O Nervo Óptico mostra, acima de tudo, a importância do olhar. De Dreux à Henri Rousseau, da nudez lânguida em Fujita às ruínas de Hubert Robert, dos cavalos de Toulouse-Lautrec até as abstrações de Kandinsky, depois de percebidas, absorvidas e incorporadas, todas essas obras deixam uma marca no indivíduo que as observa. E, enquanto forem lembradas, essas pinturas também serão eternas.

O Nervo Óptico

María Gainza

Editora Todavia 2021

144 páginas