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A estadia de Mieczyslaw Wojnicz na cidade de Görbersdorf, que alberga um sanatório onde espera curar a turbeculose, remete imediatamente para o romance A montanha mágica, de Thomas Mann. Até eu, que nunca li este clássico, o percebi de forma imediata. Acredito que quem o tenha lido consigo estabelecer paralelismos vários ao longo das páginas deste Empúsio.  Ora, o moço não está sozinho na sua luta e é com os seus companheiros de doença que embarca em diversas conversa que acabam, naturalmente, por se focar no papel da mulher na sociedade ao mesmo tempo que bebem um estranho licor (Schwärmerei) com sabor a terra e formigas.  Estas conversas, de tão ridículas e divertidas que são, transformam um livro cheio de homens num tratado abertamente feminista. Quando, no fim (ou no princípio para aqueles leitores que não resistem a espreitar as últimas páginas) percebemos que todos estes discursos se baseiam no pensamento de escritores/autores/filósofos homens, ficamos (ou pelo menos eu fiquei) com um sentimento de tristeza pela infeliz veracidade daquela parte do livro ao mesmo tempo que ganhamos um novo respeito (como se isso fosse necessário) pelo trabalho extraordinário desta mulher. 

Este não é um livro sempre fácil de ler. Depois de me divertir bastante com as ridículas conversas daqueles homens sobre as mulheres custou-me a interessar-me pela intriga policial - confesso que pouco me interessei pela busca do assassino daqueles homens. Mas a Olga Tokarczuk é, de facto, uma mestra no que a este tipo de história diz respeito (chamam-se romance de terror neuropático - o que, aqui entre nós, me faria manter longe das páginas se por acaso o tivesse sabido antes de começar a ler) e mesmo sendo uma narrativa lenta há sempre um tom, uma cor, uma presença ao longo dos seus livros que não me permite desistir da leitura. E ainda bem porque o final do livro é perfeito, quando percebemos quem é quem, os porquês e todos os pormenores que percebemos mas descartamos ao longo da história se encaixam. 

Haveria tanto para dizer mas iria certamente estragar-vos a leitura, neste caso os spoilers podem, de facto, fazê-lo e não quero isso. Ao longo da leitura nem nos apercebemos do tanto que lá cabe e isso é das coisas mais fantásticas dos livros. Fechá-lo, deixar passar algum tempo, e perceber que foram vários temas abordados e que, mesmo sem querer, continuamos a pensar neles.

Deixo-vos apenas com uma última nota: Empusa, na mitologia grega, é um dos espectros que terá saído da caixa da pandora e que, podendo metamorfosear-se numa bela mulher de cabelos de fogo, se alimenta de sangue e carne humana. Simpática, portanto :)