Matheus Lopes Quirino
Um banquinho é o melhor amigo do homem. Prestativo, ele não vai a lugar nenhum, a não ser que você o leve. Obediente, centrado, confortável. São muitos os adjetivos que se pode gastar com um banquinho. Ele, é claro, um sujeito cara de pau, mas sempre está à nossa espera. Suporta cada fardo imenso… Há dias em que ele se sente o próprio atlas a segurar o céu, como depois de uma ceia farta. Brincadeiras à parte, o banquinho é um acessório que sempre está na moda. Atemporal, ele viaja no tempo sem se desgastar tanto quanto quem o possui.
Um bom banco, mesmo que bambo, balança, mas não cai. O banquinho é um charme que um homem pode dar a sua mobília. Nada mais versátil: o banquinho é aparador, mesa, banco, apoio, arma branca, tambor, palanque, castiçal, entre outras coisas.
O banquinho é o único que não sai em disparada quando o dono solta pum. Está sempre disponível para escutar os problemas. É sentar e começar a falar. Ele é todo ouvidos. O banquinho é um camaleão que se adapta às sujas calçadas, aos chãos de taco, cerâmica, mármore. O banquinho é teatral, mundano, chique; tem um ar de off-broadway. Discreto, mas sempre pronto para ser prestativo no momento mais improvável, pode-se jantar num banquinho, engraxar os sapatos, amarrar os cadarços, cortar as unhas, fazer as unhas, desenhar, pintar, jogar qualquer jogo — desde que não envolva movimentos rápidos, como a maioria dos esportes. O banquinho é avesso aos esportes, muito por causa de um ressentimento histórico: o arremesso de bancos. Coisa dos irlandeses, que hoje fizeram as pazes com os banquinhos.
Um banquinho, se não bem tratado, pode pregar peças benignas. “Cuidado com a canela”, diz o banquinho. Um banquinho pode quebrar, partir ao meio, como o coração maltratado em toda relação a dois. O banquinho é um artefato monogâmico — ainda que, com devida permissão, possa abrigar outras bundas de vez em quando. O banquinho é tão fiel ao dono que faz a vigília noturna, tão compenetrado, que parece estar sob um encantamento.
Banquinhos estrelam filmes nos cinemas, estão em cartazes, fotos icônicas da agência Magnum, em páginas de jornais, em novelas, séries, clássicos, mansões, estúdios de cinema, hotéis cinco estrelas, vivem até no palácio da rainha da Inglaterra. O banquinho é uma espécie de viajante, a depender do inho, acompanha o dono quando se pretende estender temporada. Por que não? Existem até banquinhos portáteis.
Mas o bom e velho banco, devidamente amadeirado como um vinho chique, é um guru, ermitão, que passa horas em paz e tranquilidade. Ele não entrega os pontos, a não ser que esteja com cupins, essa praga tão natural como uma metástase. Pode ser evitada? Claro. Com devidos cuidados e algum zelo. Um banquinho pode durar, e muito, mas não resiste ao tempo. Sol tórrido, chuva de canivete, grosserias e bichinhos. A vida pode desmoronar num golpe certeiro, caro banquinho. Levar um tombo do banquinho, pelo menos, das dores, é a menor. Ah, querido banco, segure meus papéis, minhas canetas, vou puxar a cadeira para o leitor, a não ser que ele prefira você, mesmo dispensando apresentação.

Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino