![]() |
| Fotografia da minha autoria |
«O que faríamos sem cultura?»
A minha rotina de estudante culminava sempre da mesma maneira: sentada na cama a ver um episódio de uma série, porque era a minha estratégia para desligar. Hoje, já não estudo, mas gosto de encontrar estes paralelismos, até porque tive de me adaptar a rotinas novas e não queria abdicar de uma componente de lazer.
Já sabem que não sou a pessoa mais alinhada com a sétima arte, mas continuo a encontrar conforto nas séries e, cada vez mais, nos podcasts que acompanho. À semelhança de anos anteriores, consegui reunir um número simpático de projetos audiovisuais, por isso, deixo-vos com aqueles que marcaram o meu ano.
o coração ainda bate, inês meneses
As crónicas da Inês Meneses, para o Público, tornaram-se ainda mais acessíveis. É mesmo um encanto ouvi-la, porque tem uma voz que nos serena, mesmo quando os temas se afiguram mais delicados - e é quase palpável o afeto no seu diálogo. Os episódios são curtos, mas estou a saboreá-los lentamente.
O tom descontraído e cómico do enredo fascinou-me e fez com que toda a experiência de acompanhar a jornada de Simon fosse ainda mais especial, porque é evidente o seu desconforto, mas também o seu à vontade. Naturalmente, debate-se com alguns conflitos internos, mas não transforma a sua vida num drama.
debaixo da língua, rui maria pêgo
Rui Maria Pêgo regressou a Portugal e à Rádio Comercial, abraçando o projeto Debaixo da Língua. Todas as semanas, tem encontro marcado com figuras de áreas distintas, para uma conversa franca e intimista.
só se estraga uma estante, ana grifo & tomé ribeiro gomes
Descobri este podcast no discord do Livra-te e, deste então, entrou na lista de prioritários, porque rendi-me à dinâmica do casal de leitores que lhe dá voz. Ana Grifo e Tomé Ribeiro Gomes, todas as quintas-feiras, têm um episódio dividido em duas partes: na primeira, cada um fala sobre um livro à sua escolha, estabelecendo uma análise sobre o mesmo; na segunda, debatem um tema literário. Têm sido uma companhia agradável.
isso não se diz, bruno nogueira
É um projeto da autoria do Bruno Nogueira e, só por isso, para mim, já valia o investimento, porque adoro ouvi-lo e perceber até onde é que podem escalar as suas dissertações. Um bocado na onda de Como é Que o Bicho Mexe, a conversa toca em várias frentes e é isso que entusiasma - também podem aparecer convidados.
watch.tm, pedro teixeira da mota
Durante 300 semanas consecutivas, ouvimo-lo no Ask.tm, mas chegou o momento de elevar a experiência, associando-lhe uma versão com vídeo. Tem sido fantástico vê-lo e gosto que traga convidados.
Achei mesmo interessante que explorasse a sensação de invisibilidade e de vulnerabilidade, que colocasse em discussão o medo de falhar, o limbo entre a tendência para nos conformarmos e a urgência da mudança e que mostrasse como é que a estrutura familiar consegue exercer tanta influência nas nossas decisões e na nossa autoestima. Em simultâneo, é curioso como vai deixando pontos de reflexão subtis, como o facto de estarmos tão fixos na perceção de que os outros são extraordinários em tudo, que nem percebemos que não são perfeitos, que também eles têm dificuldades e que, inclusive, podem invejar algo que sabemos fazer. No fundo, vamos compreendendo que a nossa observação é sempre condicionada por aquilo que queremos ver.
three pines
Comecei a ver sem qualquer expectativa, mas agora conto os dias para que chegue a quarta-feira, só para assistir a mais um episódio duplo! Resumidamente, é uma série de mistério e thriller, que nos transporta para uma «aldeia aparentemente idílica». O protagonista, que vê coisas que mais ninguém vê, é o Inspetor Armand Gamache: ao investigar vários assassinatos, acabará por desvendar «segredos há muito enterrados».
instinct
O Dr. Dylan Reinhart foi um agente da CIA, mas, atualmente, é professor universitário. Quando a detetive Lizzie Needham o interpela, para a ajudar a encontrar um assassino que usa o seu livro como orientação, Reinhart retoma funções e deixa de lado a sua vida pacata. Acho que o ponto chave desta série é a dinâmica entre esta dupla, fiquei rendida à relação que foram construindo e às questões abordadas em paralelo.
elemental
As personagens desta longa metragem vivem na cidade Elemento, «onde convivem habitantes de fogo, água, terra e ar». A protagonista é a Chispa, do elemento fogo, que acompanha os pais na procura por uma vida melhor, aprendendo, inclusive, a gerir o negócio da família, para continuar o legado. No entanto, ao conhecer Nilo, um elemento de água, começa a «desafiar as suas crenças em relação ao mundo onde vive». Esta animação conquistou-me por completo, porque, de um modo divertido, mas bastante credível, explora questões interessantes e de máxima importância: as diferenças, o respeito pelo outro, as dinâmicas familiares, a verdade que, por vezes, preferimos ocultar, e o dilema que é assumir os nossos sonhos, quando há perspetivas de futuro que parecem já ter sido definidas para nós - e porque nunca é fácil sentirmos que, ao escolhermos o nosso caminho, estamos a desiludir aqueles que fizeram tudo por nós. Aconselho para miúdos e graúdos.
coisa que não edifica nem destrói, ricardo araújo pereira
A minha lista de podcasts está bem composta, mas Ricardo Araújo Pereira achou que precisava de uma atualização. Como não lhe podia fazer esta desfeita, é claro que Coisa Que Não Edifica Nem Destrói já pertence à minha biblioteca do Spotify. Não acho que seja um conteúdo para ouvirmos enquanto fazemos tarefas mais triviais, descontraídos, é um podcast para escutarmos com tempo e atenção redobrada.
cubinho, ricardo maria, vitor sá & antónio azevedo coutinho
Comecei a maratonar Cubinho, em agosto. Até aqui, ouvia episódios soltos, mas resolvi aproveitar que a maior parte dos meus podcast entrou de férias para me pôr a par de tudo aquilo que o António Azevedo Coutinho, o Vitor Sá e o Ricardo Maria partilharam até ao momento. Agora já não dispenso as partilhas destes três.
a vida é um autocarro vazio
Maria Judite de Carvalho está a ser uma das minhas maiores descobertas literárias. No passado dia 19 de setembro, na RTP2, foi exibido um documentário sobre a vida e obra da autora e, claro, tive de o ver, para saber mais sobre esta mulher tão silenciosa, mas com tanto a dizer sobre o mundo. Há um contraste entre a vida lá fora e a vida dentro do seu quarto. Ouvimos narrações dos seus textos e testemunhos de pessoas próximas, que partilharam memórias de Maria Judite de Carvalho e o impacto que os seus livros tiveram nas suas vidas. Além disso, fazemos uma viagem pela sua infância, marcada por perdas e um certo vazio afetivo. Sendo a morte um terceiro elemento, torna-se percetível que utilizou a escrita para preencher ausências.
vai correr tudo bem, guilherme geirinhas
O humorista Guilherme Geirinhas lançou a sua série, Vai Correr Tudo Bem. Deixem-me só dizer uma coisa: temi que o projeto não saísse da gaveta, porque parece que passou uma vida desde que o Guilherme falou sobre ele. Não quero que isto seja lido em tom de crítica, porque cada artista tem o seu processo e detesto quando lhes cobram novidades. Portanto, acho que este parágrafo é mais uma manifestação de alívio, porque queria muito ver a série. Confesso que os dois primeiros episódios não corresponderam às expectativas, mas é evidente o crescimento desta série e os episódios seguintes conquistaram-me por completo. Que viagem!
Que filmes/séries/podcasts destacariam?
