Fotografia da minha autoria

«Não encostei meus lábios em sua boca»

Os teus lábios fel

Cor de veneno salgado

Roxo como o sangue que me corrói

Endoideci de desejo

Perdi o enlaço são da minha alma

E caí na tentação de te sentir

São os meus lábios

Puros e desabitados

Quem clama a tua presença

Mas tu não te deitas ao meu lado

Ris e provocas-me calafrios

E eu caio na tua teia

Tecida a loucura

Entregue à tua ausência

Choro a cinza desfeita

Da tua figura fugidia

Que um dia soube amar

São os teus lábios

O meu doce veneno

A minha morte lenta

Em lágrimas

Que não te cobrem o rosto

Mas que te fazem sorrir

Foi uma vida inteira

E eu não senti o sabor da tua boca

Ficou, somente, o seu contorno

Cravado no espelho e em mim

Num portal de mágoa

Que eu ainda te tenho

Adormeço sem tremor

E o teu toque inquieta-me

Arregalo o olhar e desapareço

Para sempre, em silêncio

Guardando uma última memória:

Os teus lábios carnudos

Pintados com a minha sentença

- Sombra iminente e sem história

Cruel fim

De um amor solitário

Do outro lado da margem

Do outro lado de mim

Para não mais sobrar