(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de dezembro de 2002)
Na série Brava Gente a Globo está exibindo adaptações de Os pastores da noite (1964). Um dos episódios, O COMPADRE DE OGUM já havia sido transposto para a tevê e por isso mesmo foi publicado à parte pela Record. Agradável e divertido, também serve como amostra de certas limitações de Jorge Amado (1912-2001) como escritor.
O argumento é deveras engenhoso. Massu, um dos “pastores da noite”, quer batizar o filho, deixado aos seus cuidados pela mãe, Benedita, que sumira no mundo e reapareceu muito doente. Escolher a madrinha é fácil (“apenas citou-se Tibéria e as demais candidaturas foram retiradas”); melindroso é decidir, entre tantos amigos, qual o padrinho.
Massu recorre a Ogum e, para sua surpresa, o santo quer ter ele mesmo a honra. É preciso que alguém o incorpore no dia do batizado e vá à igreja. O escolhido é Artur da Guima, veterano “cavalo” de Ogum. Porém, na data do evento (que mobiliza Salvador, uma vez que é fato inédito um orixá tornar-se compadre de um mortal), Artur recebe Exu, que se passa por Ogum, enganando a todos.
O desfecho não podia ser mais delicioso: padre Gomes, que vai realizar o batizado, foi criado—quando criança—nos ritos do candomblé, mas ao ser mandado para o seminário esqueceu-se de tudo. Mesmo assim, é de quem Ogum se vale para se incorporar (perdoado o trocadilho) à cerimônia e expulsar o inoportuno Exu.
O COMPADRE DE OGUM, ao fim e ao cabo, é uma apologia, como outras realizadas por Jorge Amado, da mestiçagem e da força popular. E ambas acabam sendo idealizadas ALÉM DA CONTA.
Baiano cordial, Amado foi cada vez mais deixando para trás a crítica social, ao ponto da anulação completa: tudo é harmonioso, todo mundo se solidariza, os problemas todos são facilmente resolvidos. É curioso que, no início da estória, o narrador reitere as dificuldades financeiras dos “pastores”, mas que, na hora de realizar as exigências de Ogum e Exu, mais os preparativos bombásticos do batizado, esses problemas econômicos desapareçam magicamente. Será esse o tal do realismo fantástico?
Além do mais, a questão da mestiçagem, que ele via como a grande força brasileira (e especialmente da Bahia, é claro) não passa de uma grande bobagem equivocada: qualquer povo importante na história da humanidade sofreu em alguma altura o processo de miscigenação, é algo inerente à sociedade humana. Tomar um fato circunstancial e contingente como se fosse um destino específico do povo brasileiro, e ainda mais numa sociedade até agora tão antidemocrática como a nossa, é um dos aspectos mais irritantes da obra do autor de O COMPADRE DE OGUM.
Uma história simpática e bem contada acaba derrapando na demagogia (que, com certeza, Amado devia ver como uma espécie de subversão utópica da ordem social), em trechos como, por exemplo, o que se refere ao bonde que alguns personagens tomam para chegar ao batizado: “O motorneiro, negro forte e jovem, perdera o controle do veículo e pouco se preocupava com isso. Ia o bonde ora numa lentidão de lesma, como se não existissem horários a obedecer, como se o tempo lhe pertencesse por inteiro, ora em alta velocidade, comendo os trilhos, rompendo todas as leis do trânsito, numa urgência de chegar. O condutor mulato zarolho de cabelo espetado tocava a campainha sem quê nem porquê, em ritmo de música de santo. Pendurado no estribo, recusava-se a cobrar as passagens… Tudo de graça, por conta da Companhia, dizia a rir, como se houvessem tomado o poder, assumido o controle da Circular, os motoristas e condutores, os operários das oficinas. Como se naquela manhã tivesse sido decretado o estado de alegria geral e de franca cordialidade… Uma atmosfera azul cobria a cidade, a madrugada permanecia no ar, a gente ria nas calçadas…”!!!??? Milagres do povo.
Parece que o autor compartilha da mesma filosofia simplória que move seus personagens e que pode ser resumida na frase do Cabo Martim para seu amigo Massu: “Tem alguma coisa mais séria que o rabo de uma dona?” Deve ser por isso que as estórias de Jorge Amado ficam tão à vontade na tevê. Só que, em vez de “brava gente”, poderíamos dizer “rasa gente”.







