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«No dia seguinte ninguém morreu»
Avisos de Conteúdo: Morte, Suicídio
A vida avança e o ser humano reconhece que, por mais longo que seja o seu percurso, por mais distintas que sejam as suas paragens, alcançaremos todos o mesmo destino: porque a morte, tão natural, é o que temos de mais certo. Mas e se até ela nos falhar? Foi com esta premissa que abracei a obra de José Saramago.
DO SONHO AO PESADELO
As Intermitências da Morte é o retrato de uma sociedade que se viu privada do seu fim. O que não deixa de ter repercussões curiosas, atendendo a que, cada um à sua maneira, passamos a vida a teme-lo e a evitá-lo a todo o custo. No entanto, quando se propõe um cenário de imortalidade, o sonho transforma-se num pesadelo.
«Algumas raras pessoas, à boca pequena,
murmuravam que aquilo era um exagero, um despropósito»
A alegria que, inicialmente, acompanha a sensação de eternidade começa a enfraquecer assim que se compreende que as suas consequências serão mais nefastas que benéficas: porque se prolonga a dor, o sofrimento, a angustia e o desnorte. Além disso, há uma falência de certos negócios e uma total desadequação de serviços e estruturas cruciais à população. Se a Humanidade fica inextinguível, o que será feito do futuro?
«A dignidade era então uma forma de altivez ao alcance de todas as classes»
Neste ponto da narrativa é claro que se multiplicam as perguntas: qual será o custo desta realidade? Até onde estaremos dispostos a ir? Que limites morais transporemos para erradicar o desespero, fazendo a travessia? Há, deste modo, um conflito para o qual somos implicados e que nos leva a refletir sobre esta distopia.
A MORTE ENQUANTO PERSONAGEM
É muito interessante a forma como esta obra se divide, quase como se estivéssemos perante dois livros autónomos. Na primeira parte, um pouco mais exaustiva por se concentrar nas reações e neste fenómeno surreal, desconstruímos o nosso medo de morrer. Na segunda parte, por outro lado, com um ritmo mais fluído, escutamos a voz da morte, tão humana quanto nós, priorizando um tom muito mais emocional e intimista.
«(...) lançam palavras à aventura e não lhes passa
pela cabeça deter-se a pensar nas consequências»
As Intermitências da Morte, com a sua energia dupla, mostra-nos uma crítica perspicaz e sarcástica, com maior foco na Igreja Católica. José Saramago surpreendeu-me com este enredo e, sobretudo, com o seu final.
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