Reunião de ensaios da jornalista e escritora Joan Didion documenta cotidiano americano da década de 1960 através de detalhes
Matheus Lopes Quirino*
Depois de uma crise textual, literária, um bloqueio pesado em processos criativos, Joan Didion viajou e escreveu uma das mais célebres reportagens sobre a juventude norte-americana. No esquema clássico jornalístico, quando? Verão de 1967. Onde? São Francisco, Califórnia. O quê? O movimento dos cabeludos que escandalizavam a América, uma revolução de costumes (sexo, drogas, Rock’n Roll) a céu aberto por personagens icônicas, que vão dos membros do Greateful Dead, ainda como banda de garagem, aos tipões esquedomachos da época.
Em matéria de lide (os mandamentos clássicos de uma reportagem), Didion foi além. Seu ensaio publicado no The Saturday Evening Post é venerado até hoje por gerações. Não à toa, nomeia seu livro “Rastejando até Belém”, que acaba de ser lançado pela editora Todavia. Primeiro livro de não-ficção da autora, de 1968, ano cabalístico para a cultura mundial. Ela estava lá no Golden Gate Park, subindo as colinas do Castro, bairro ícone de San Francisco.
“Entre nove da noite e meia-noite de 26 de agosto de 1965, uma quinta-feira que teria sido comum, mas que, por ordem do presidente, foi o último dia em que alguém, simplesmente por se casar, poderia ser dispensado do serviço militar, 171 casais foram declarados marido e mulher no condado de Clark, no estado de Nevada, 67 deles por um único juiz de paz”, escreve a jornalista, em um dos ensaios da primeira parte de “Rastejando até Belém”.
É com humor (quase sempre) que Joan Didion se funde aos acontecimentos e, bem-vinda sua presença, transforma um fato, ainda que absurdo como os casórios em Clark, em literatura. Expoente do New Journalism, ao lado de Janet Malcom e Truman Capote, a veterana, hoje aos 86, é fonte de inspiração para gerações de escritores. Freelancer full time, Didion sempre foi uma observadora sagaz da política e cultura estadunidense, tendo colaborado ao longo de décadas com diversas publicações, entre elas a Time e The New Yorker, inclusive a revista Harper’s Bazaar.
A vida da menina de Sacramento que fez carreira nas redações em Nova York é marcada por tragédias. Do amor à filha Quintana que viu fenecer nos anos 2000 aos escândalos que presenciara de perto na Los Angeles dos anos 1960, o assassinato da atriz Sharon Tate, então mulher do cineasta Roman Polanski, marcou a biografia de Didion. “Muitas pessoas que conheço em Los Angeles acreditam que os anos 60 terminaram abruptamente em 9 de agosto de 1969, no exato momento em que foi ao ar a notícia ‘Assassinato na Cielo Drive [residência dos Polanski]’ e incendiou o público em geral”, concluiu a escritora, à época. Vizinha de Tate, ela escrutinou o caso, escrevendo sobre a vítima de Charles Manson e sua seita no livro “O álbum branco”, de 1979.
Uma escriba miúda, Didion tornou-se uma gigante da crítica de costumes da sociedade norte-americana por décadas, retratando o movimento Hippie e a Contracultura com uma escrita elegante e antenada às vanguardas e modas de seu tempo. No terreno jornalístico, passou incólume por manifestações feéricas, infiltrando-se in loco, com o par de olhos castanhos atento a qualquer indício que lhe valesse uma reportagem. Não se considera boa repórter, tem pavor de telefones, mas credita seus sucessos à baixa estatura e à temperança.
Discreta, Joan Didion prefere se distanciar dos holofotes, o que facilita o trabalho de um jornalista investigativo. Afiada também na literatura, seu best-seller “O Ano do Pensamento Mágico” recebeu o National Book Prize, em 2005. Tem 16 livros publicados, sua obra volta ao Brasil com devido atraso, mas antes tarde do que nunca.
*Este texto foi publicado inicialmente na edição brasileira de fevereiro da revista Harper’s Bazaar
Rastejando até Belém
Joan Didion
editora Todavia
ano de edição 2021

Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino