(Roald Dahl)
Roald Dahl tem um conto, “Mr. Botibol” sobre um personagem que busca em vão se integrar ao mundo.
Mr. Botibol é rico, mas fracassado. Para começo de conversa, é um sujeito fisicamente repulsivo: alto, magro, cabeça disforme, sem ombros, “parecia um aspargo” vestindo terno e gravata. Tem um sentimento de profunda insegurança.
O conto se abre mostrando um almoço dele com um possível comprador da empresa que ele herdou do pai. O comprador havia feito uma proposta inicial modesta, apenas para mostrar que estava interessado e abrir as negociações. Estaria disposto a pagar até três vezes aquele valor. Quando os dois se encontram no restaurante, Mr. Botibol, tímido, nervoso, atrapalhado, abre a conversa dizendo que aceita a proposta. Como ocorre com todo tímido, disputar contra a vontade alheia lhe produz uma sensação de imenso desconforto.
A questão é que o comprador, animado pelo sucesso, abre uma garrafa de vinho e pela primeira vez na vida Mr. Botibol se deixa inebriar pelos vapores de Baco. Volta para casa cambaleante mas eufórico, e, como é um apreciador de música clássica, põe no fonógrafo um disco sinfônico qualquer, para dar vazão àquela sensação inédita de bem estar.
E logo ele se flagra a si mesmo de pé no meio da sala (ele mora sozinho, com um velho mordomo), regendo a sinfonia, e sente-se transportado, como nunca o sentira, para o mundo glorioso da Arte.
Para encurtar a conversa, Mr. Botibol manda construir em casa um auditório, um palco, uma bancada para maestro e um engenhoso sistema gramofônico onde os discos são substituídos sem que a sinfonia seja interrompida.
Depois, ele compra um piano de cauda e o instala no palco, tomando o cuidado de fazer com que as teclas sejam emudecidas, para que ele possa fingir que está tocando, sem produzir som algum.
E daí em diante, Mr. Botibol passa a tomar uma garrafa de vinho no jantar e em seguida subir ao pódio de maestro (sob os aplausos ensurdecedores de um disco de efeitos sonoros) e imaginar que está regendo, toda noite, uma sinfonia diferente. Até o dia em que...
Bom, o final da história é menos importante, aqui, que sua premissa. O que Dahl nos mostra em seu conto é o protótipo de uma multidão gigantesca que há no mundo: os “artisticamente prejudicados”, para imitar o jargão atual. Pessoas que têm sensibilidade para as coisas da arte (no caso, a música clássica) mas a quem falta o estudo e o treino necessários para praticá-la.
Eu me identifico com Mr. Botibol porque em termos de partitura não distingo um dó de um ré, mas ainda assim sou capaz de escutar música erudita (uma dessas bem melódicas e acessíveis – um Tchaikóvski, um Mozart) e imaginar que a estou regendo ou que a estou tocando. É mais ou menos o que faz os adolescentes de hoje se amarrarem em jogos como Guitar Hero, em que você preme os botões do console e imagina que é Santana, Jimmy Page ou Jimi Hendrix fazendo aquele solo de rachar o céu em duas bandas.
1723) Vontade de ser artista (19.9.2008)
literatura, música clássica, identificação pessoal, arte, comportamento humano
Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo
