Uma catástrofe em círculo
existencialismo, isolamento, tédio, reflexão sobre o tempo, angústia cotidiana
É frustrante perder minutos da vida indo em direção ao nada. Pior, dando voltas ao torno do mesmo rochedo. Somos náufragos em nossas próprias casas Sentar sem saber, necessariamente, por onde começar, oras, já é um começo. Todos os dias poderia sentar e não vislumbrar enredo algum, caindo, consequentemente, na repetição cotidiana. Agora, literalmente, estamos fadados a nos repetir, mesmo munidos com as melhores intenções. Não saber por onde começar, por mais um dia, é um sintoma da agonia cotidiana vivida na pele. Terça-feira não é mais terça-feira. O calendário se transformou num acúmulo simbólico de uma massa já muito triturada pelo tempo, pastosa, fedida, modorrenta. Aquilo que se chamava dia, há mais de ano, transformou-se em nada. Nada. É como se estivéssemos em um jogo de tabuleiro e tirássemos sempre a carta do regresso: volte duas casas. Volte duas, quatro, seis, oito, doze, vinte e uma, trezentos e quarenta e cinco casas e mais algumas horas. A vida é andar de marcha ré. Como um disco ao contrário em mau agouro. Every time… É embaraçoso sentar para falar sobre nada. É frustrante perder minutos da vida indo em direção ao nada. Pior, dando voltas ao torno do mesmo rochedo. Somos náufragos em nossas próprias casas. Ao redor, um mundo desaba em dilúvio. Maremotos. Avalanches. Tsunamis. Bombas atômicas, pregas mitológicas, cataclismas, tornados, chacinas, guerras, doenças que se espalham na velocidade da luz e entram pelos portos. Pelos poros. É uma batalha já perdida, sempre foi. Agora, preste atenção, agora é o momento de dar mais uma volta. Circular outra vez no apartamento, como um marcador no espaço, um compasso que circunda o crepúsculo. Este texto não parece ter muito rumo. Ele vai, volta. Está em círculos. E se não foi possível decretar o começo, tampouco haverá uma delimitação do final. Rotacionar pode causar tontura. É um círculo vicioso. É um círculo vicioso. ps – na necessidade de não dar as caras, seguiremos na esperança de haver, na vida real, um fim definitivo para a catástrofe que vivemos. E que os dias possam ter começo, meio e fim, como deve ser.
Texto originalmente publicado em Revista Fina