12
Out21
Maria do Rosário Pedreira
No Verão falei-vos do primeiro romance que li de Elizabeth Strout (O Meu Nome É Lucy Barton) e no Outono falo-vos de Olive Kitteridge, romance da mesma autora que, com ele, venceu muito justamente o prémio Pulitzer. O livro tem, antes de tudo, uma protagonista inesquecível: ao contrário da maioria das personagens femininas que hoje se passeiam pela ficção premiada, Olive é sincera, cáustica, incorrecta, bruta, enfim, autêntica e, como todas as pessoas reais, com várias atitudes infelizes ao longo da vida (de que nem por isso se arrepende muito). Já a puseram numa série que ganhou um Emmy, mas não sei dizer se é boa ou má nem se podemos vê-la em Portugal. Do livro, sim, posso dizer muita coisa: que é profundamente original, com uma estrutura montada a partir de histórias independentes nas quais Olive às vezes não se demora mais de uns segundos (muitas foram, aliás, publicadas autonomamente em revistas); que é incrivelmente humano numa época em que a literatura está cheia de exemplos de plástico onde só há vítimas ou pessoas politicamente correctas e bem-comportadas (aqui há sangue e carne, para o bem e para o mal); que é um retrato de uma certa América com muita gente ignorante que tem o crime à distância de um gesto ou de um pensamento (matar à facada, pôr fogo...), deprimidos, traumatizados, burros, e bons também (Henry, o marido de Olive, é tão bom que o adoramos logo nas primeiras páginas); que é uma leitura nada óbvia que nos enriquece e que puxa por nós, como já raramente encontramos quando lemos livros há cinquenta e tal anos. Uma boa notícia: Olive veio para ficar e existe um segundo livro recentemente publicado em Portugal chamado A Segunda Vida de Olive Kitteridge. Não vos posso contar como acaba a primeira, mas também não vou perder a nova. Façam o mesmo, vale muito a pena.