A POBREZA E A EXCLUSÃO TORNAM A TERRA PLANA; O MUNDO TEM FIM, ADIANTE É O MAR TENEBROSO
“Eu nunca fui nada. Nem tem jeito de ser nada. Mas, porra, eu não quero morrer. Não quero. O Zulu não falava que queria morrer. Mas eu sei que ele não queria. Eu estava sabendo. Eu via. Não é que eu via, manja? Estava escuro paca. A gente não se via. Eu, no começo, só enxergava o revólver que estava na mão do filho da puta. Essa merda aqui. Esse trinta e oitão mesmo. Mas quando ele passou pra minha mão, eu nem via mais a draga. Via os olhos do crioulo. Via o medo dele… Eu vi. Ele estava encagaçado. Eu sei. Eu sei de tudo. Eu sou o Querô! Porra, eu sou o Querô! … Era eu ou ele. E antes ele do que eu…Os meus olhos eram duas brasas. E ele via. Via bem o gosto que eu tinha na boca… Via bem. Via o cheiro que eu tinha no nariz. O fedor escroto. O fedor fodido do perfume das putas da Xavier… O crioulo via. Via. E eu via. Via a merda toda. Aquela bosta fedida era minha vida. A minha própria vida. E eu apertei. Apertei pra valer… Porque era a minha vida que valia ali. A minha bronca fodida de tudo. Desde que eu nasci. Desde esse apelido porco que carrego.”
Três décadas depois da sua publicação original (1976) Querô é uma eficaz marreta literária na demolição de algumas monolíticas ilusões. Uma delas, típica da mentalidade proto-fascista de parte da nossa sociedade, tem como base o ressentimento com os “direitos humanos” (é, fala-se assim, como se tratassem de uma entidade encarnada) e formas de proteção social (a lei do adolescente e do menor, por exemplo), responsáveis por um comportamento “folgado” da banda excluída; outra, a de que teria havido uma época em que a violência no país não era “tanta” (nem falemos aqui dos saudosos da ditadura militar).
Quando a violência não foi “tanta” (e tantalizante) no Brasil? Em que momento, que idade de ouro, não tivemos uma realidade brutal de exploração e de exclusão? Policiais corruptos, truculentos, moleques quase facínoras, pés de chinelo sem noção de cidadania, desamparados, carne para cemitério, serviços sociais precários, o romance de Plínio Marcos é, tanto quanto curto, eloqüente nesse sentido. Hoje, o que poderia diferenciar os Querôs de seus predecessores é haver certos estatutos que os protegeriam mais, se corretamente aplicados e cobrados pela sociedade civil. Fantasma de uma época em que sequer havia isso, a voz de Querô, ao contar sua trajetória, vem nos assombrar.
Outra ilusão, que parece antagônica, mas creio ser complementar, é o sentimentalismo em torno da garotada abandonada à sua própria sorte, um discurso bom mocista pífio e falso. Pela minha própria experiência, posso dizer que não há nada a resgatar em certos casos, eles só fingem que aceitam todo o blá blá blá com que os cercamos, e no fundo acham tudo uma babaquice, pois é outro o código que os rege, é o código da barbárie a que foram relegados, não-cidadãos que são. E há um ponto sem retorno, a filosofia definida por Querô: “Nas quebradas do mundaréu, na hora do ‘vamos ver’ ‘é cada um, cada um’”. E isso, caro leitor, por incrível que pareça, é filosofia profunda.
Para alterar suas premissas, seria preciso haver outro molde do humano. No mais, o relato do filho da prostituta que se mata ao beber querosene, faz um acachapante retrato de uma parte de Santos, entre as décadas de 60 e 70: a área do mercado, do cais, com seus puteiros, inferninhos (ainda então chamados de cabarés), bares, bibocas, pensões ordinárias, cortiços, as barcas para Itapema. E nada desenha melhor a mente e a experiência de Querô do que essa geografia.
É a Santos vivida na opressão da miséria e da ignorância, não muito diferente de qualquer cafundó nordestino. Os coronéis só mudam de domicílio, nunca de pele, e os filhos deles bem podem ser promotores armados, anunciando a tiros seus privilégios escusos. Para Querô, a terra é plana, uma linha nítida demarca o limite: nada de cidade balneária, nada das praias, dos célebres jardins, dos canais, do Gonzaga. Mais do que o mercado municipal, as docas, as bocas, é a terra da exclusão:
“O Itapema eu conhecia bem. Quando estava com o Tainha, a gente sempre atravessava pra esse lado quando batia sujeira no cais do porto… Quase de noitinha, quando eu já ia desanimando, um catraieiro conhecido atracou. Arrisquei. Falei com ele. Deu certo. O homem me atravessou de graça pro mercado. Me senti livre. Estava com fome, com frio, com sono, quase nu. Mas estava em Santos. No mercado onde me criei. Estava, agora sim, em casa.”
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 8 de setembro de 2007)





