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Tema: Um livro que ficou por ler em 2019

O místico e interminável mundo das estantes poderia ser o nome de um dos filmes da minha vida. Porque perco-me na imensidão de histórias disponíveis e faço por complementar a minha modesta biblioteca sempre que possível. E isso implica que a lista de livros para ler seja tão desproporcional ao tempo que disponho. O ano passado li muito. Mais do que julguei ser concretizável. No entanto, não foi suficiente para desvendar todos os títulos em espera, transitando-os para 2020.

Uma Dúzia de Livros tem-me permitido arriscar. E, para o tema de janeiro, a escolha foi imediata, até porque a curiosidade era imensa. Assim, mergulhei no inigualável A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, que se tornou num dos meus favoritos. Pela escrita cuidada e quase poética. Pela sobreposição de temáticas. Pelo enredo imprevisível. E pelo amor à literatura. O autor teve a mestria de partir de um lugar mágico - o Cemitério dos Livros Esquecidos - para nos levar numa viagem sentimental e sombria, muito fiel ao que poderia ser o relato da existência de alguém. Porque sinto que um dos pontos fulcrais desta obra é mesmo o seu caráter relacional e credível.

Barcelona. 1954. O pós-guerra e os seus destroços emocionais. É neste cenário de caos que deambulamos, procurando resolver um enigma vertiginoso, perigoso e bastante esclarecedor acerca das relações inter e intrapessoais, uma vez que é feito de pessoas, para pessoas, cruzando várias gerações. E no enlaço desta descoberta, confrontamo-nos com problemáticas que, infelizmente, permanecem atuais: o preconceito, o desrespeito, o abuso de poder, a chantagem. Num plano contrário, também sentimos a dor da ausência e da morte, o efeito dos amores platónicos [e proibidos], o peso das promessas e dos segredos e a beleza indescritível da integridade, que apenas habita o coração daqueles que se orientam pelos valores certos. E esta história, ainda que contenha exemplos de má índole, transborda de personagens com uma alma bonita e inspiradora, ofuscando os demais protagonistas.

É impressionante como um acaso abre a porta para uma realidade tão angustiante, melancólica e nefasta, resultante de um conjunto de mentiras, vinganças, orgulho e traições. E é o peso da obsessão, do ódio e da intriga que despoleta um destino cruel, onde a perda se torna irreversível. Num crescendo de maturidade, acompanhamos o compromisso de atar os nós das narrativas que surgem em paralelo, exaltando a coragem - e uma certa dose de loucura e inconsciência - e o desejo por aparentes causas perdidas, que se revelam cruciais nesta jornada tão intensa. Deste modo, apresenta um ritmo fluído, contagiante e inebriante. Até porque vemos um amor a ecoar no tempo.

A Sombra do Vento transmite empatia. Interliga o passado e o presente. Explora a fidelidade. Não se poupa a lições de vida - sublimes e nunca impostas. Traça uma rota intertextual, estabelecendo uma ponte com nomes relevantes, mas também com a própria solidão, proveniente de uma «auto e hetero censura». E descreve a natureza humana no seu melhor e no seu pior. Em simultâneo, não ignora a fibra das mulheres. E envolve-nos num enredo conspiratório, com uma aura de suspense, incredulidade e, ainda, de humor, aproximando-nos da volatilidade dos nossos passos. Porque a ascensão e a queda são faces da mesma moeda.

Este romance termina da mesma forma que se inicia, demonstrando o quanto a nossa evolução é cíclica. Através do seu final com notas de esperança, e atendendo a que aborda um pouco de tudo - mistério, morte, política, sexo, amizade -, compreendemos que há obras nas quais tropeçamos e que nunca mais nos abandonam. Porque, neste elo tão umbilical, fazem morada no nosso peito, marcando-nos eternamente.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«- Agora? Às cinco da manhã?

- Há coisas que só se podem ver nas trevas - insinuou o meu pai com um sorriso enigmático que decerto pedira emprestado de algum livro de Alexandre Dumas» [p:10];

«O interior do estojo era forrado de veludo azul-escuro. A fabulosa caneta Montblanc Meisterstuck de Victor Hugo repousava no centro, deslumbrante. Tomei-a nas mãos e contemplei-a à luz da varanda. Sobre a mola de ouro da tampa estava gravada uma inscrição» [p:92];

«- Ele gostaria de saber que alguém o queria manter vivo, que o recordava. Dizia-me que existimos enquanto alguém nos recorda» [p:201];

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