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| Fotografia da minha autoria |
«Uma das mais belas criações arquitetónicas»
O céu envolto de névoa, acentuando o misticismo de locais magníficos, recebeu-nos à porta de um sonho antigo. Observando o meu Norte a ficar para trás, rumei até Sintra, para me perder na sua paisagem saída de um conto de fadas. E, para garantir que a experiência seria ainda mais memorável, programei duas visitas distintas, mas com imenso potencial. Tentei que as expectativas não assumissem proporções perigosas, porém, foi simples compreender que nunca seriam defraudadas. Porque, para iniciar a aventura em pleno, calcorreei um espaço exótico. Harmonioso. Contrastante. Inigualável. E onde a magia é praticamente palpável.
O Parque e Palácio de Monserrate é uma das construções «paisagísticas do Romantismo em Portugal» e um forte testemunho dos «ecletismos do século XIX». Além disso, «é um dos mais ricos jardins botânicos portugueses», permitindo-nos recuperar energias pela sua extensa área verde, enquanto nos maravilhamos com as inúmeras espécies «vindas de todo o mundo», encontrando-se organizadas por secções geográficas. E é indescritível a energia que nos abraça e que nos desarma a cada passo, pois deambulamos por um misto de sensações, de cores, de estilos arquitetónicos. E o mais curioso - e fascinante - é que tudo encaixa na perfeição, como se cada traço só fizesse sentido desenhado daquela forma. Numa combinação de itinerários, obras de arte, memórias, vivências e natureza, o meu coração ficou conquistado para sempre.
Quando cheguei à zona do Palácio, senti-me a ser transportada para uma realidade paralela. No exterior, somos recebidos pela Fonte do Tritão. Assim que entramos, ficamos sem palavras para a planta octogonal com arcos góticos e colunas de mármore rosa, prendendo-nos o olhar em constante admiração. Sendo o Átrio Sul uma das entradas, possibilita-nos uma ligação direta ao piso inferior, no qual se localiza a cozinha, e a dois pisos superiores, onde se «situavam os aposentos de Sir Francis Cook». Não desfazendo qualquer detalhe, tendo em conta que tudo é deslumbrante, o teto «trabalhado com motivos vegetalistas» é absolutamente sublime. E inesquecível. Por seu lado, o Átrio Principal, que se encontra ao centro, «destaca-se pela fonte de alabastro, pela estátua e pela cúpula». A vista privilegiada e os apontamentos rendilhados pautam, também, toda a perceção da visita.
O jogo de luz na Galeria Central é conseguido pelos «padrões mouriscos em estuque relevado». E é a sucessão de arcos «que marca o ritmo das colunas e potencia o efeito da perspetiva zenital». A partir daqui, vagueamos por várias ramificações: a Sala de Estar Indiana [com especial foco no florão central do teto]. A Sala de Música [de planta circular, com um «friso animado com representações de musas e graças]. A Sala de Bilhar [dedicada exclusivamente para o jogo inglês]. A Biblioteca [que é o «único espaço do piso térreo dotado de porta»]. A Sala de Jantar [que, atualmente, apresenta uma decoração original, sob «a técnica de stencil]. A Cozinha [que beneficia de acesso direto para o exterior]. E a Capela [um lugar de oração e evocação a Santo António]. Comum a todas as divisões é o cuidado na sua preservação, uma vez que pertencem a um património de valor incalculável. No piso superior, é possível encontrar exposições temporárias, bem como atividades e conferências, dinamizando esta área mais íntima.
A alma de Monserrate revelou-se sedutora e inspiradora. Porque é inegável a sua beleza. A sua história. A sumptuosidade da componente decorativa. E os pormenores que reforçam a sua identidade. Começando pela Quimera [criatura mitológica, que «introduz a ideia de fantástico para lá dos portões»], passando pelo Arco de Vathek, pela Cascata de Beckford, pelo Hipocrene [lago], pela falsa ruína da Capela, pelo Arco Indiano, pela Casa de Pedra, pelo Caminho Perfumado, pelo Terraço e terminando no Jardim do Japão, no Roseiral, no Jardim do México e no Vale dos Fetos, o segredo é redobrar a atenção. E absorver tudo aquilo que o nosso olhar alcança, procurando mergulhar um pouco mais fundo.
Por caminhos sinuosos e uma essência eletrizante, esta Paisagem Cultural - Património da Humanidade - foi muito mais do que idealizei. Trouxe-me o mundo. E mais um espaço-casa, com particularidades apaixonantes. Em processo de conservação, é paragem obrigatória. Mas para ser descoberta com calma. Usufruindo de todo o seu esplendor.
Já visitaram o Parque e Palácio de Monserrate?
