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Mai22
Maria do Rosário Pedreira
Quase todos nós fomos, em algum momento, coleccionadores. Eu fiz colecção de postais aos doze anos, mas há quem tenha preferido cromos, selos, moedas, canetas, paliteiros, caixinhas ou outra coisa qualquer. Há um belíssimo livro de Edmund de Waal, oleiro e ceramista, chamado A Lebre de Olhos de Âmbar, que se debruça justamente sobre uma colecção de pequenas peças japonesas (netsuke), muito em voga no final do século XIX, como, aliás, outras «japonesices». De Waal herdou esta colecção de um tio-avô e observa-a com a maior das atenções: as peças variam muito, incluindo animais, pessoas exercendo ofícios, frutos e até cenas eróticas; as pecinhas cabem numa mão fechada e têm um certo ar de talismãs. O autor resolve então ir atrás dos anteriores proprietários e regressa a uma riquíssima família de judeus, os Ephrussi, cultos e amigos dos impressionistas, que viviam entre Viena e Paris e se tornaram grandes coleccionadores de arte, nomedamente um dos irmãos, Charles, que privou com os Goncourt, e foi o primeiro proprietário dos netsuke. Vale muito a pena ler este delicioso livro premiado sobre tempos que não voltam e pessoas que também já não há. Em 5ª edição, creio, o que para uma não-ficção sobre arte está bem acima das expectativas.