Chegava da escola e ia correndo abrir a caixinha de correspondência do prédio. Ansiosa. Suando. Como se de dentro daquela caixinha estivesse meu futuro inteirinho. Ou, pelo menos, uma bela oportunidade do vir a ser. Bastava girar a chave.

Maria Paula Curto*

Não sou uma pessoa romântica. Nunca fui. Tenho uma enorme dificuldade em me apaixonar e me entregar de corpo e alma a uma relação. É ruim, eu sei disso. Eu bem que queria me jogar inteira, sem pestanejar. Mas eu me defendo, me controlo. Como diria minha mãe: eu penso demais. E quando ele, o pensamento, entra em jogo, já era. Na luta entre Apolo e Dionísio, meu desejo termina sempre nocauteado, de cara no chão, totalmente humilhado. Em volta do ringue, não há cordas, mas uma Muralha da China. Nela, zilhões de post-its dizendo 1538 motivos para eu não seguir em frente. Não vale a pena. Você vai se dar mal. Sua liberdade vale mais. (e que liberdade cara essa, viu?) Você não vai dar conta. E eu sempre obedeci. Por zelo ou covardia, segui amarrada ao mastro do navio, surda ao canto da sereia. Não fui ao fundo do poço, tampouco dei grandes mergulhos. Sobrevivi na superfície sem muitos estragos.

Por isso, não tenho muitas histórias de amor para contar. Mas uma, em especial, me pegou de jeito. Talvez porque já faça mais de 40 anos e, à época, meu Mike Tyson da racionalidade ainda estava em treinamento. Foi a primeira vitória de Eros.

Um dia, estranhei a grossura do envelope. Fino demais para conter uma folha. Será que ele tinha esquecido de colocar a carta e me enviara apenas o envelope? Rasguei com cuidado. Foto: reprodução.

Fui passar as férias em Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro, a convite de uma superamiga e conheci um menino moreno, de sorriso largo e gostoso que olhou para mim de um jeito que eu não conhecia. Um jeito diferente, maroto, que me fez perceber, em segundos, que eu tinha um corpo. Um corpo! E que a fantasia de menininha ingênua começava a ficar apertada. Eu precisava de mais espaço. Espaço que coube direitinho naquele olhar.

O problema é que esse menino, para minha tristeza, não morava no RJ. Ele era de São Paulo. (Só não me perguntem por que raios um paulista escolheu passar as férias a 600 km de distância da cidade. Talvez porque minha sina com a pauliceia desvairada já começava a se delinear desde sempre). Bem, com o fim das férias, tivemos que enfrentar um desafio gigante. E agora? Como vamos fazer para falar um com o outro? Só lembrando que estávamos no início da década de 80, ou seja, só existia telefone fixo e olhe lá, pois nem ele funcionava às mil maravilhas não. Era ruído, linha cruzada, contas com valores exorbitantes, principalmente se usavam DDD, enfim, celeumas que apenas os 40+ sabem que existem. O jeito foi apelar para as cartas. Sim, cartas! Pelo menos uma vez por semana, ou a cada 15 dias, eu tirava um tempo da minha tarde, escolhia um papel de carta bonito, mas sem muita frescura para não parecer infantil, e escrevia. Com muita paciência e cuidado, pois qualquer erro poderia ser fatal. Eu teria que começar tudo de novo. Afinal, eu escrevia à mão, de caneta. Não podia rasurar. Você não acha que eu ia rasurar minha cartinha para ele, acha? Não tinha como apagar. Não dava para apertar a tecla DEL e digitar novamente. Não, absolutamente! Eu teria que jogar fora aquela folha e voltar à estaca zero. Como era importante aquele momento da escrita! Era um pedaço de mim que se esparramava pela folha em branco, desenhando, em palavras, o que nem eu conhecia.

Depois de tudo escrito, eu tinha que fechar o envelope com cola – passar a língua no envelope não era suficiente. Apesar de bem prazeroso… –, acrescentar um selo e partir para a unidade dos Correios mais próxima. Se era época de festas, ou com alguma data comemorativa, como dia das mães, dos pais ou sei lá o que mais, as filas dobravam o quarteirão. Haja disposição para namorar à distância naquela época, viu? Era para os que tinham força. E vontade.

Uma vez enviada a carta, restava aguardar a passagem do carteiro. Era um verdadeiro ritual. Chegava da escola e ia correndo abrir a caixinha de correspondência do prédio. Ansiosa. Suando. Como se de dentro daquela caixinha estivesse meu futuro inteirinho. Ou, pelo menos, uma bela oportunidade do vir a ser. Bastava girar a chave. Que fácil seria… Quando tinha somente contas ou propagandas, era uma decepção só. Voltava pra casa arrasada. Mas imediatamente lembrava que no outro dia, haveria uma nova possibilidade. Como era bom saber disso. Que sempre haveria uma nova possibilidade. Quando finalmente me deparava com aquele envelopinho e suas bordas listradas em verde e amarelo, uhuuu, eu era só felicidade. Subia no elevador impaciente e os míseros 3 andares que me separavam do térreo pareciam os 102 do Empire State!. Corria para o quarto para abrir a carta. Na maioria das vezes, as cartas não tinham absolutamente nada de especial. Apenas relatos do que ele tinha feito, visto ou ouvido de bom na semana. Um show do Djavan, o novo álbum do The Police, um Indiana Jones no cinema do bairro. Mas já era o suficiente. Ele tinha escrito. Para mim! À mão. Com a sua letra. Sem copy & paste. Sem Arial ou Times New Roman 12. Sem Google ou Chat GPT. Se continham erros de ortografia ou concordância, tudo bem. Não havia disfarce. Era vida, humana, jorrando em palavras, pontos e vírgulas. E espaços. Muitos espaços.

Um dia, estranhei a grossura do envelope. Fino demais para conter uma folha. Será que ele tinha esquecido de colocar a carta e me enviara apenas o envelope? Rasguei com cuidado. Por dentro, havia um pequeno bilhete. Sem pauta, as letras subiam e desciam o papel, enroscando-se, nervosas, como se soubessem o poder que carregavam, o embaralhamento que causariam. Foram apenas três palavras. O primeiro “Eu te amo” a gente nunca esquece.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP