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Dez10

Maria do Rosário Pedreira

Não se deixe enganar pelas flores cândidas da capa nem pelo título, que pode parecer o de um romance cor-de-rosa. O romance é leve, sim, mas apenas porque não tem razões para ser denso e pesado – e, além de muito divertido, é sério e há que prestar-lhe a devida atenção. Chama-se As Asas do Amor, porque fala de aves e de amor – um caso triangular que envolve uma viúva e dois pretendentes maduros, todos membros de um clube de ornitologia no Quénia. Ela é branca, mas já foi casada com um negro que terá sido assassinado por opositores políticos. Eles são indianos, descendentes das comunidades de formiguinhas trabalhadoras que ali foram construir os caminhos-de-ferro quando os brancos achavam os negros demasiado indolentes para deixarem tudo pronto a horas (é também dessas comunidades, li algures, que provém o grande número de indianos que vivem em Moçambique). Escreveu o livro Nicholas Drayson e, se estou bem lembrada, ele chegou a estar na longlist do Booker Prize no ano em que saiu. Pois bem: a história de amor entre estas três pessoas de idade respeitável é uma delícia, já que os dois pretendentes a levar a bela viúva ao baile anual são uns senhores e concordam em auto-excluir-se se não conseguirem, num determinado período, listar um número de aves vistas superior ao do rival. E nós, leitores, deixamo-nos arrastar nesta aventura ornitológica cheia de humor britânico, vendo talvez perder o candidato que merecia ganhar, mas inequivocamente simpatizando com o dandy bem vestido e engatatão que consegue maravilhas à conta de alguma batota. Tudo com a maravilhosa África como pano de fundo.