Luciene Azevedo

Crédito da imagem: Renee Green, “Partially buried in three parts”, 1996.

Em um texto no qual discute a associação da ficção com o surgimento do gênero romanesco, Catherine Gallagher realça o papel que as verdades têm para a criação literária. Sabemos o quanto a ideia de autenticidade e sinceridade eram caras aos primeiros romancistas. Gallagher identifica aí, paradoxalmente, nessa demanda, o que torna possível a validade da verossimilhança ficcional. Os romancistas se empenhavam em fazer parecer verdade o que inventavam. Ao final de seu instigante ensaio, a autora identifica nas produções do início do século XXI o mesmo apelo à realidade do que se conta e prevê que a pergunta pelo status do que é narrado por nossos escritores – ficção ou não?- será uma questão fundamental para os leitores de nosso presente, tornando, então, imprescindível “a pesquisa sobre o que sabemos acerca da ficção”.

Parto de Gallager porque me interessa considerar a condição moderna da literatutra que surge no século XVIII associada à ficção para refletir sobre o que cada vez mais aparece tematizado como uma desficcionlalização das formas narrativas atualmente. São narrativas que se voltam para um extracampo, assumem demandas que, sob as características consolidadas ao longo da modernidade, podem ser tranquilamente consideradas extraliterárias. Meu recorte investigativo então tem a ver com uma velha exigência que ronda a literatura: a ideia de que é necessário justificar sua importância, delimitar seu funcionamento social, político, investigar mais uma vez a fenda que há entre o ficcional e o real. Como? Minha atenção se volta para o que vem sendo chamado de guinada documental e que é uma disposição presente não apenas na literatura, mas nas artes em geral.

Em uma obra sobre mediação de leitura literária escrita pela investigadora argentina de literatura infanto-juvenil, Cecilia Bajour, leio sua queixa a respeito do consenso que é buscado por tantas obras contemporâneas. O que Bajour caracteriza como consenso diz respeito a obras que usam a ficção, a garantia de sua associação com a literatura, para ajustar o imaginário a demandas extraliterárias baseadas em mensagens unidirecionais. Sem mencionar o filósofo Jacques Rancière, Bajour faz o elogio do dissenso, do desentendimento, da disputa sobre o que quer dizer falar, ressente-se com a desficcionalização de tantas narrativas hoje e defende, utilizando as palavras do escritor Martín Kohan, “uma espessura de complexidade que não deveria se achatar nas lisuras lineares da literatura de ‘mensagem’”.

Não estou preocupada com uma suposta desficcionalização, ao menos não como defesa de um essencialismo sobre a literatura. Minha inquietude teórica com o que vem sendo chamado de desficcionalização está relacionada ao surgimento de fontes documentais em meio a narrativas. São documentos históricos, como acontece, por exemplo, com o romance de Beatriz Bracher, Guerra. Ou ainda o uso de imagens, presentes nas narrativas do escritor alemão W.G. Sebald.

Assim, a desficcionalização é por mim compreendida como um desvio de nossa compreensão moderna de ficção, e indica a possibilidade de problematizar mais uma vez nosso entendimento do ficcional associado ao que chamamos de literatura.
É desse modo também que entendo a guinada documental no presente. Encarada dessa maneira a desficcionalização não é mera contraface dos discursos ligados à pós-verdade, que apelam cada vez mais a estratégias ficcionalizantes, mas uma possibilidade, oferecida por algumas práticas literárias atuais, de redimensionar, mais uma vez, as relações entre as ficções e as verdades.

Acredito que nossa compreensão da ficção, consolidada durante a modernidade, está se modificando, sofrendo um desvio, muitas vezes na direção do que chamamos não ficção, textos que precisam do lastro referencial, do que está no extracampo, na vida do próprio autor, e que ganham caráter documental. E, nesse sentido, não acredito que isso seja motivo de preocupação, mas, sim, uma oportunidade para pesquisarmos sobre o que sabemos acerca da ficção, como sugeriu Gallagher.