(Pete Seeger/Joe Hickerson, 1955 / 1960)

Onde foram todas as flores?


Tanto tempo passou

Onde foram todas as flores?


Há tanto tempo atrás

Onde foram todas as flores?


Raparigas colheram-nas todas

Oh, quando irão aprender?


Oh, quando irão aprender?

Onde foram todas as raparigas?

Tanto tempo passou


Onde foram todas as raparigas?

Há tanto tempo atrás


Onde foram todas as raparigas?

Em busca de marido, todas elas


Oh, quando irão aprender?

Oh, quando irão aprender?


Onde foram todos os maridos?

Tanto tempo passou


Onde foram todos os maridos?

Há tanto tempo atrás


Onde foram todos os maridos?

Ser soldado, todos eles


Oh, quando irão aprender?

Oh, quando irão aprender?

Onde foram todos os soldados?
Tanto tempo passou

Onde foram todos os soldados?


Há tanto tempo atrás

Onde foram todos os soldados?


Aos cemitérios, todos eles

Oh, quando irão aprender?


Oh, quando irão aprender?

Onde foram todos os cemitérios?

Tanto tempo passou


Onde foram todos os cemitérios?

Há tanto tempo atrás


Onde foram todos os cemitérios?

Em flores se fizeram, todos eles


Oh, quando irão aprender?

Oh, quando irão aprender?




O QUE FIZERAM DA CHUVA?²
(Malvina Reynolds, 1962)

Só uma leve chuva, caindo por toda a parte

As ervas erguem-se à melodia celestial


Apenas uma leve chuva, uma chuva breve

O que fizeram eles da chuva?


Apenas um rapazinho à chuva

A doce chuva há tantos anos caindo


E a erva desapareceu

O rapaz desapareceu


E a chuva ainda cai, como lágrimas desamparadas

O que fizeram eles da chuva?


Apenas uma leve brisa vinda do céu

As mãos das folhas tocam-se à sua passagem


Só uma leve brisa e algum fumo em seu seio

O que fizeram eles da chuva?


Apenas um rapazinho à chuva

A doce chuva há tantos anos caindo


E a erva desapareceu

O rapaz desapareceu


E a chuva ainda cai, como lágrimas desamparadas

O que fizeram eles da chuva?




O SOL QUEIMANDO³
(Ian Campbell, 1963)

O sol no céu queimando


Fios de nuvens lentamente vagueando

No parque abelhas preguiçosas


Nas flores entre as árvores zumbindo numerosas

E o sol no céu queimando 


Agora o sol está a ocidente

Meninos indo para casa, finalmente


E no parque os enamorados

Aguardam a escuridão de dedos enlaçados 


E o sol está a ocidente

Agora o sol está a afundar

Crianças ainda brincando sabem que é tempo de voltar


Bem no alto um ponto aparece

Breve flor rebentando, aproxima-se, não desvanece


E sol está a afundar

Agora o sol a terra tocou

Uma nuvem-cogumelo letal o amortalhou


A morte chega num ofuscante clarão 

De calor infernal, deixa de cinza um borrão  


E o sol a terra tocou 

Agora o sol tem o seu degredo 

Tudo é escuridão, ira, dor e medo


Destroços humanos, cegos e retorcidos

Tacteando de joelhos, de dor os gritos


E o sol teve o seu degredo


SENHORES DA GUERRA
(Bob Dylan, 1963)

Venham Senhores da Guerra

Que construíram as grandes armas


Que fizeram os aviões assassinos

Que montaram todas as bombas


Que se escondem entre paredes

Que se fecham atrás de secretárias


Só quero que saibam

Consigo ver pelas vossas máscaras


Vocês que nunca nada fizeram

Apenas construir para devastar


Vocês brincam com o meu mundo

Como se um vosso brinquedo fosse


Metem uma arma na minha mão

E escondem-se do meu olhar


Voltam-se e para longe correm

Quando as balas rápidas voam


Como o Judas de outrora

Vocês mentem e enganam


Uma guerra global pode ser ganha

É o que querem que acredite


Mas vejo através dos vossos olhos

Através dos vossos cérebros


Como vejo através da água

Que corre para o escoadouro 


Preparam todos os gatilhos

Para outros apertarem 


Então recostam-se, observando

Quando a contagem dos mortos sobe


Escondem-se em vossas mansões

Enquanto o sangue dos jovens


Escorre dos seus corpos

E entranha-se na lama


Vocês instigaram o pior medo

Que poderia ser instigado


O medo de trazer

Crianças a este mundo


Por ameaçarem o meu filho

Por nascer e nomear


Não merecem o sangue

Que vos corre nas veias


Que sei eu

Para falar do que não devo


Poderão dizer que sou jovem

Poderão dizer que não tenho estudos


Mas há uma coisa que sei

Sendo mais jovem que vocês


Nem Cristo perdoaria

Aquilo que fazem


Deixem que vos pergunte

O vosso dinheiro é assim tão bom?


Acham que será possível 

Comprar o vosso perdão?


Julgo que irão descobrir 

Quando a morte vier para cobrar


Todo o dinheiro que juntaram

Jamais salvará a vossa alma


Espero que morram

Que a vossa morte venha em breve


Acompanharei o vosso caixão

Pela tarde pálida


Estarei a observar quando o baixarem

À cova que o espera


E sobre a vossa campa ficarei

Até ter a certeza que morreram 




VÉSPERAS DE DESTRUIÇÃO
(P.F. Sloan, 1965)

O mundo oriental está em ebulição

A violência resplandece, carregam-se balas


Tens idade suficiente para matar, mas não para votar

Não acreditas na guerra, que arma é essa que seguras?


Até no rio Jordão flutuam cadáveres 
Diz-me, então
Uma e outra vez, meu amigo

Como não acreditas


Que estamos em vésperas de destruição? 

Não compreendes o que tento dizer?

Não sentes os receios que hoje sinto?


Se carregam no botão não há como escapar

Não haverá ninguém para salvar com o mundo fechado num túmulo 


Olha à tua volta, rapaz, é suposto assustares-te

E diz-me, então

Uma e outra vez, meu amigo


Como não acreditas

Que estamos em vésperas de destruição? 


Tenho o sangue louco, parece coagular

Sento-me apenas a contemplar


Não posso distorcer a verdade, ela não conhece regra

Um punhado de Senadores não aprova leis


E as marchas, por si não trazem integração 
Quando o respeito pelo homem se desagrega  
Este mundo insano é demasiado frustrante 

E diz-me, então

Uma e outra vez, meu amigo


Como não acreditas

Que estamos em vésperas de destruição? 


E penso em todo o ódio que existe na China comunista

Põe os olhos em Selma, no Alabama⁶


Ah, podes ausentar-te por quatro dias

Quando regressares será o mesmo lugar de sempre


O ribombar dos tambores, o orgulho, a desgraça

Podes enterrar os teus mortos, só não deixes vestígio


Odeia o teu vizinho, mas não esqueças de dar graças
* Versões de Pedro Belo Clara a partir dos originais.
1 Escrita por Pete Seeger, um dos maiores vultos da música folk norte-americana. Porém, foi Hickerson que lhe deu a forma habitualmente cantada, tornando-a uma canção circular. Ganhou expressão pela voz de diversos cantores folk, sendo talvez a versão dos Kingston Trio a mais divulgada. Em 2010 foi listada no Top 20 das mais influentes canções políticas de sempre.
2 Celebrizada pela voz de Joan Baez numa versão assombrosamente delicada e bela, tendo-a designado “a mais doce das canções de protesto”. O tema expressa sérias preocupações acerca dos testes nucleares de superfície. Fora descoberta a presença de certos elementos radioactivos na atmosfera após as explosões, e com a ocorrência de chuva a radiação desceria à terra, contaminando-a. Várias facções tomaram uma posição de protesto, pois esses elementos tóxicos poderiam entrar na cadeia alimentar humana pelo pasto que certos animais, como vacas, comeriam. Seria um ciclo destrutivo. Malvina participou activamente em marchas contra os testes nucleares. 
3 Composta por um músico escocês, mas foi nas doces vozes do duo Simon & Garfunkel que o tema alcançou a celebridade. Mais um exemplo de protesto suave, dado o tom quase pastoral da melodia, embora nos deixe com vívidas imagens do que um flagelo nuclear provocará.  
4 Presente no segundo álbum do cantor norte-americano, rapidamente se tornou num dos ícones musicais na década de sessenta. Uma clara acusação dirigida aos orquestradores de conflitos, nos tempos incertos da Guerra Fria. A conceituada Rolling Stone classificou-a em sexto lugar, no ranking das mais influentes canções-protesto de sempre. 
5 O seu autor era sobretudo um guitarrista, pelo que sempre houve o intuito do tema ser entregue a alguém que lhe pudesse dar voz. A canção encontra um relativamente desconhecido Barry McGuire que, pouco convencido, decidiu gravá-la, com o próprio Sloan na guitarra. O sucesso foi imediato, tornando-se com o tempo um dos grandes hinos contra a guerra do Vietname. E não só: dado o carácter universal da letra, percebem-se críticas à preocupante situação vivida na década, tanto na América como fora dela. Várias estações de rádio recusaram-se a tocá-la com a justificação de que “auxiliava o inimigo vermelho”. Porém, diga-se, sem retirar méritos à canção, que muita da sua celebridade ficou a dever-se ao media da época. Numa tentativa de torná-la um símbolo de tudo o quanto havia de errado com a designada “cultura jovem”, acabaram por despertar interesse nela. Uma vez escutada, milhares de jovens americanos rapidamente se reviram na sua mensagem. 
6 Local do “Domingo Sangrento”, ocorrido em março de 1965. Diversas pessoas protestavam pacificamente pela igualdade de direitos entre brancos e negros, quando foram brutalmente agredidos pela polícia local e estatal. A cidade foi um importante epicentro da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, e ponto de partida de diversas marchas de protesto (as célebres “Selma to Montgomery”, esta última a capital do estado).