Quem se dá o trabalho de ler esta coluna provavelmente conhece algumas das minhas músicas gravadas por aí. Uma das minhas preferidas é “O Marco Marciano”, uma parceria com Lenine gravada por ele no CD O dia em que faremos contato (BMG, 1997). A letra é uma tentativa de reproduzir em clima de ficção científica a tradição dos “Marcos e Obras” dos poetas de cordel nordestinos. Os Marcos são fortalezas inexpugnáveis inventadas pelos poetas, usando todos os recursos descritivos ao seu dispor. Eles imaginam castelos cercados por fossos intransponíveis onde nadam piranhas e jacarés ferozes; muralhas de pedra e de aço; torreões munidos com canhões gigantescos; milhares de soldados armados até os dentes, prontos para resistir a qualquer invasão.
Os mais famosos Marcos estão transcritos no livro Marcos e Obras, de Átila Almeida e José Alves Sobrinho, em co-edição da Universidade Federal da Paraíba (Campus II) e Universidade Regional do Nordeste, de 1981. É um livro de valor inestimável, por transcrever (com ortografia original) os textos de 14 destes poemas, folhetos raríssimos que só umas poucas bibliotecas brasileiras possuem. O mais antigo é de 1907, o mais recente de 1947.
Inspirado nestes textos, o meu Marco em parceria com Lenine tem como ponto de partida as misteriosas imagens captadas em 1976 pela nave norte-americana Viking 1, ao sobrevoar e fotografar a superfície de Marte, pesquisando possíveis locais de aterrissagem para a futura Viking 2. Fotos feitas na região marciana conhecida como Cydonia causaram sensação, quando divulgadas pela Nasa. As fotos mostram uma colina ou elevação natural que, com iluminação lateral fazendo um jogo de sombra e luz, lembra um rosto humano. Pior ainda: lembra o rosto dos macacos do filme O Planeta dos Macacos!
As fotos ficaram famosas no mundo inteiro, e era de fato tentador imaginar naquela região um “Vale dos Reis” marciano: nas formações rochosas em volta o pessoal mais animado começou a ver “praças”, “pirâmides”, “rodovias”... Acusaram a Nasa de estar escondendo fotos ainda mais reveladoras – o que me parece um contra-senso. Se a Nasa, notoriamente com falta de verbas, descobrisse sinais de uma civilização marciana extinta, teria todos os motivos para tornar essa descoberta pública e convencer o Congresso a liberar mais uns bilhõezinhos. Fotos feitas em 2001, contudo, fizeram os marcianólogos abaixar a crista. Com câmaras de mais resolução, e melhor tratamento de software, as novas fotos mostram que a aparência humana do “rosto” era ilusão de ótica. Quem quiser tirar a prova pode dar uma olhada em:
http://www.msss.com/mars_images/moc/extended_may2001/face/index.html.
A discussão cessou, ninguém fala mais no “Rosto em Marte”. (É claro que eu tomei as devidas providências para interferir nas câmaras. Não ia deixar os americanos fazerem com meu Marco o que fizeram com o Afeganistão e o Iraque.)

