nota- Fui convidado a participar do Simpósio de Letras da UNIMES VIRTUAL de Santos, cujo tema geral é a marginalidade, ou melhor, o que seria centro, o que seria periférico. Enquanto minha companheira de mesa abordou Diário de um ladrão, de Jean Genet, eu abordei A fúria do corpo, de João Gilberto Noll. Ainda colocarei no blog um texto mais elaborado, com o teor da minha participação, mas abaixo vai a resenha que surgiu (arranhando apenas alguns aspectos do romance, é preciso dizer) durante minha releitura do texto.

(resenha publicada, de forma ligeiramente mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 2011)

O gaúcho João Gilberto Noll é um dos romancistas mais notáveis da atualidade, destacando-se pela linguagem minimalista e precisa que, no entanto, reverbera uma intensidade muito peculiar, contrastando com aquele dizer à beira do colapso, do silêncio, da saciedade retórica. Num país com inflação verborrágica, é sempre um ato de coragem um estilo como o adotado em obras como Bandoleiros ou Hotel Atlântico.

Porém, quando estreou no gênero há 30 anos, com A fúria do corpo, enveredou na direção contrária, a do excesso verbal, a do hiperbólico, no tom over que marcava a dicção do Cinema Novo, a de Glauber Rocha, por exemplo, ou a do cinema imediatamente influenciada pela estética cinemanovista, caso de A lira do Delírio, de Walter Lima Jr., uma estética do grito, discursiva e barroca.

Situado ainda na época da ditadura, A fúria do corpo se passa num Rio de Janeiro, a Cidade, ao mesmo tempo muito concreto e altamente alegórico. O narrador e sua amada Afrodite são mendigos que circulam por Copacabana, sob a ameaça nada alegórica do Esquadrão da Morte, antepassado das milícias atuais (uma bala pode estar viajando em nosso encalço, o Esquadrão da Morte pode ver em nós carne própria de presunto”). Não são meramente mendigos, são também o eterno herói mítico, que é sacrificado, “esquartejado” (o sparagmós, o despedaçamento), para poder ressuscitar (como nos mitos solares, dos quais a história de Cristo é um derivativo), e ela, como o próprio apelido indica, é eros, o anelo da vida, a insistência em viver apesar de tudo, contrapondo-se à morte sempre possível e presente. E que melhor lugar para um herói ressuscitar senão na Cidade onde o paradigma é o Carnaval?

O Rio passa por uma onda de calor alucinante (a Cidade entrava em combustão espontânea… eu ali continuava esmagado sob o peso de um dia ainda mais quente que o anterior…”). O casal se separa, ele é levado para uma enfermaria do SUS, um dos círculos do inferno, conhece um garoto traficante (que é também um anjo), o qual trabalha um grupo de leprosos (lembram daqueles seres repulsivos e oraculares de 300?, é por aí), os dois transam durante alguns dias (há um momento especialmente forte no mar, colocado como contraponto edênico à cidade babilônica), o garoto é assassinado pela polícia (em outro círculo infernal), o herói reencontra Afrodite, agora fazendo sexo explícito numa boate, vão viver num conjugado, ela desce mais e mais baixo na escala da prostituição, ele também vira michê, e os dois vão confirmando o mote narrativo (“então foder foder foder do jeito que fosse era a saída para mim e Afrodite, foder com a carne do mundo”). As descrições sexuais são hipertrofiadas, mas têm uma naturalidade inaudita, rara na expressão literária, onde geralmente soam falsas ou programáticas. Até que a inapetência sexual (ele fica impotente e ela frígida) se instale, e ambos se entreguem ao desamparo existencial, à impotência diante do esforço de viver…

Mas há o Carnaval. E ele é a virada de avesso do mundo, a inversão dos papéis. Reduzidos à mendicância novamente, os dois entrarão Copacabana Palace adentro (após um primeiro ato de marginalidade criminosa, assaltando um gringo, o que também mescla ao tecido narrativo a questão da subversão e do repúdio aos EUA nesse período de chumbo da nossa história pelos círculos esquerdistas) e se tornarão nababos carnavalescos, confirmando a tendência para o mítico, para o confronto entre o fardo cristão e os anseios pagãos que correspondem à nossa natureza, não apenas a ansiedade hedonista que se compraz no consumo.

No meio do exagero todo, um bocado de talento e de páginas extraordinárias, e um universo autoral emergindo dessa teogonia crua e desarmônica. Do discurso agônico, em convulsão, de A fúria do corpoproduziu-se a fantástica seda para os textos curtos , facas-só-lâminas (além dos citados, podemos destacar Rastros de verão, O quieto animal da esquina, Harmada) .Em 2008, após tantos anos de contenção, Noll romperia o dique e reinstauraria o excesso com o surpreendente  Acenos e afagos. Represado ou liberado, fluxo ou enxurrada, é um curso das águas onde os mitos nos abandonaram, uma cruz atravanca o caminho, perdidos esquecemos o valor humano e aguardamos mesquinhos tão-só o julgamento pelo gesto sórdido…esperando pelo pior a cada passo, já derrocados pelo escândalo sem saber de quê…

Eu ia terminar este meu texto afirmando que João Gilberto Noll bem que poderia ser o primeiro Nobel brasileiro, já que os suecos insistem em desprezar Don DeLillo. Mas a eleição, pela Academia Brasileira de Múmias, de Merval Pereira para ingressar no coro dos imortais, me dissuadiu. Agora abraço a candidatura de Merval Pereira para o Nobel porque a literatura brasileira das últimas décadas não seria nada sem a sua obra, o impacto da obra mervaliana nos rumos da nossa prosa eclipsa totalmente uma trajetória apagada como a de um  mero Noll. Obrigado, Academia, por abrir meus olhos para esse tesouro escondido.