Desde que Theodor Adorno (1903-1969) levantou a questão em seu ensaio “O estilo tardio de Beethoven” e Edward Said a retomou em Estilo tardio, publicado postumamente em 2006, os leitores das obras literárias têm dado particular atenção ao assunto. Como a iminência da morte do autor, concreta ou imaginada, modifica o conteúdo de seus escritos e o estilo que o envolve (ou vice-versa, como queria Dante)? 

No caso do russo Anton P. Tchekhov (1860-1904), médico, pesquisador, dramaturgo e um dos mestres mundiais da narrativa curta, seus últimos contos e novelas, Os Mujiques e Últimos Contos, recentemente publicados pela Todavia com apresentação e tradução de Rubens Figueiredo, satisfazem plenamente nossa curiosidade. Como se transformaram aqueles sketches acridoces, aqueles flashes citadinos do dia a dia que permitiram ao jovem estudante de medicina, neto de um servo da gleba que comprou sua liberdade graças ao comércio, não apenas se sustentar e ajudar a família, mas começar a ser conhecido e cobiçado pelas revistas da época? E as “três irmãs” de sua peça mais conhecida, conseguiram, afinal, ir até a cidade grande?

Anton P. Tchekhov (1860-1904).

Do ponto de vista do estilo, uma vez que a diferença da voz dos protagonistas geralmente não se mantém na tradução, o que chama particularmente a atenção é, nesses últimos contos, o inesperado e frequente uso da primeira pessoa. O estilo aparentemente ingênuo e evasivo das fases anteriores torna-se confessional e incisivo nos últimos escritos de Tchekhov. De fato, ele que insistia na distância que devia ser mantida entre o narrador e a realidade, ao transformá-lo em protagonista, agora, nas quase cem páginas de “Minha vida — Conto de um homem de província”, por exemplo, aparenta tomar partido frente a essa mesma realidade e, de certa forma, julgá-la. Ele que insistia em dizer que a função do escritor não é dar respostas, mas colocar perguntas, faz seus protagonistas responderem, agora.

A realidade da Rússia, em sua breve vida (Tchekov só viveu 44 anos), ainda era predominantemente agrária. A abolição da servidão da gleba em 1861, decretada pelo tsar Alexandre II, que viria a ser assassinado anos depois, havia deixado os camponeses em situação ainda pior.

No tempo da servidão era melhor — disse o velho enquanto fiava a seda — a gente trabalhava, comia, dormia, tudo em sua hora. No almoço tinha sopa de repolho, tinha kacha, e no jantar também davam sopa de repolho e kacha. Pepino e couve, isso tinha à vontade: a gente comia quanto quisesse, quanto a alma da gente pedisse. E o rigor também era maior. Todo mundo andava na linha”. (Os mujiques, p. 417)

Tchekhov não tinha pelos mujiques aquela admiração que reconhecia em Tolstói (o qual, por sinal, gostava muito dele): “Eu tenho sangue de servo e não me deixo iludir”. De fato, tanto o zemstvo (sistema de comunas que pretendia dar mais autonomia à administração local, introduzido após a emancipação dos servos, em 1864) quanto os seus representantes, pobres e ricos, são objeto das críticas do escritor: “Grosseiros, desonestos, imundos, embriagados, eles viviam em discórdia e não paravam de brigar porque não se respeitavam, tinham medo e desconfiavam um dos outros. Quem cuida da taverna e embriaga o povo? O mujique. Quem desperdiça e gasta em bebida o dinheiro da comuna, da escola, da igreja? O mujique. Quem é o primeiro a atacar os mujiques na assembleia do zemstvo e em outras reuniões? O mujique”. (Os mujiques, p. 434)

Tchekhov e Tolstói.

De uma maneira geral, a realidade camponesa continua miserável: será que algum dia os filhos dessa realidade terão condições de alcançar sua dignidade? Por outro lado, há a cidade. Não se trata tanto aqui das grandes cidades, como Petersburgo e Moscou, para onde almejavam ir as três irmãs da peça homônima, e onde se discutiam as grandes questões nacionais referentes ao capitalismo incipiente. Trata-se, ainda, das assim chamadas “cidades de província”, onde se notavam certa urbanização e industrialização e novas relações de trabalho e de escolaridade que permitiam, principalmente aos funcionários e aos pequenos comerciantes, um certo grau de conscientização e de autodeterminação.

Vejamos o que diz o escritor, agora apelando para a primeira pessoa de “Minha vida”: “Na cidade inteira eu não conhecia nenhuma pessoa honesta. Meu pai cobrava propinas e imaginava que lhe davam aquilo por uma questão de respeito a suas qualidades morais; a fim de passar de ano, os ginasianos pagavam para comer na casa de seus professores que, em troca, cobravam deles grandes somas de dinheiro; na hora do recrutamento, a esposa do comandante militar cobrava dos recrutas (…) os médicos também cobravam dinheiro dos recrutas, o médico municipal e o veterinário cumulavam de multas os açougues e as tavernas; no instituto provincial vendiam os certificados que que garantiam a isenção do serviço militar; membros do alto clero cobravam propinas dos padres subalternos”. 

Só alguns profissionais liberais autônomos ou artistas conseguiam escapar dessa engrenagem, estudando, trabalhando e… partindo. E “só de algumas mocinhas vinha um ar de pureza moral; a maioria tinha aspirações elevadas e almas honradas e puras; no entanto, elas não compreendiam a vida e acreditavam que os subornos eram oferecidos em sinal de respeito às qualidades morais e, quando casavam, logo envelheciam, se rebaixavam e, irremediavelmente, afundavam no lodo de uma existência vulgar e burguesa”. (Os mujiques, p. 287)

O que amarra esses contos curtos e longos e passa a apaixonar o leitor é o mergulho na psique dessas personagens através da problemática variável do amor. Às vezes, romântica, como a dessas mocinhas referidas por Tchekhov; às vezes, sufocada (“ Iónitch”, “O homem no estojo”, “Em casa de amigos”, “Quem foge do amor”); às vezes, sobretudo nos homens, marcadamente física e sexual, insuflada por fetiches, formas e aparências, podendo se deslocar para a ação benemérita (“A groselheira”); há também, inesperadamente, aquela que é fruto do convívio (“Três anos”) ou da descoberta tardia de afinidades, como em “A dama do cachorrinho”, uma das obras-primas da coletânea dos Últimos contos. 

Foi justamente no singelo conto de Tchekhov “A queridinha” (também em Últimos contos), para o qual escreveu uma célebre apresentação, que Tolstói encontrou o melhor exemplo do amor que sempre procurou propor em seus escritos sem, na opinião dele, consegui-lo plenamente. Ólienka é uma jovenzinha “que estava sempre amando alguém” e sem isso não conseguia viver. Adolescente, amava o pai; depois — recém-casada —, amou Kúkin, dono de um parque de diversões, e aprendeu tudo sobre teatro, atores, público, bilheteria, despesas.

O marido morreu e, aos poucos, seu vizinho, Vassili, gerente de um depósito de madeirame, ganhou seu coração. Ólienka passou a saber tudo sobre toras, vigas, caibros, sarrafos, troncos, barrotas, aparas. “Deus permita que todos vivam tão bem como eu e Vassílochka”, dizia ela. Mas também esse marido morreu. Estava claro que, sem alguém para amar, ela não conseguiria viver, de modo que se apegou ao veterinário Volódichka, que estava separado da mulher, com a qual não se dava. Sua convivência foi feliz até que ele foi convocado para a Sibéria, com seu regimento. Ólienka se viu novamente sozinha e… sem razão para viver. Nem os carinhos da gata preta Briska conseguiam comovê-la.

Mas eis que o veterinário está de volta e — conforme ela mesma havia sugerido — fizera as pazes com a mulher desamada, que trouxe o filho para cursar a escola na cidadezinha. “Meu Deus! Estão sem moradia? Ora essa! Fiquem aqui mesmo, na minha casa!” diz Ólienka. A partir daí, o menino Sacha passa a ser o objeto do amor da “queridinha”. “Hoje em dia o estudo no ginásio é muito difícil — dizia ela, no bazar —.” “Não é brincadeira, ontem mesmo, na primeira série, deram uma fábula para decorar, uma tradução do latim, e um problema… E para um menino tão pequeno, como pode?”

É nesse impulso, inato ou não, de contribuir para o bem do outro, de querer o bem do próximo, transformado em lei universal, que tanto Tchekhov como Tolstói encontram, entre todos, o significado último do amor.


Aurora Fornoni Bernardini é escritora, tradutora e professora titular da USP no Departamento de Línguas Orientais e na pós-graduação no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Graduou-se em inglês (1959-1963) e em russo (1962-1966) pela USP, onde ainda concluiu seu mestrado (1970, sob orientação de Boris Schnaiderman) e doutorado (1973, sob orientação de Alfredo Bosi) sobre o futurismo russo e italiano, e sua livre-docência (1978) sobre Marina Tsvetáieva. Dedica-se também à pintura, tendo realizado exposições individuais e coletivas.