(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de março de 2000)
Há 150 anos, em março, Honoré de Balzac realizou um sonho, casando-se—enfim—com seu grande amor, Eveline Hanska, que entrara em contato com ele em 1832. Não sobrava muito tempo para o criador da Comédia Humana e ele morreria ainda em 1850.
O destino melancólico de Balzac não difere muito dos destinos dos seus próprios personagens. Há sempre um processo de “ilusões perdidas” (o título do seu maior romance) no universo da Comédia. Uma boa chave para penetrá-lo é O pai Goriot (Le père Goriot),publicado em 1835: foi ao escrevê-lo que Balzac começou a pensar em fazer um gigantesco ciclo de narrativas, no maior empreendimento ficcional do século XIX.
Eugène de Rastignac, o herói, é a encarnação definitiva—talvez mais ainda do que o Lucien de Ilusões perdidas—do jovem provinciano diante da metrópole. Ele vai a Paris como estudante e vê seus valores esmigalhados pelo mundo da grande cidade babilônica. Morando na sórdida pensão Vauquer, Rastignac procura a “proteção” de uma mulher mais velha (tema típico balzaquiano) para poder entrar na alta sociedade. Para isso, entra em contato com uma parente distante, madame de Beauséant, digna ancestral da duquesa de Guermantes, de Em busca do tempo perdido, para auxiliá-lo na caça à mulher certa.
Caberá a outro hóspede da pensão, Vautrin, na verdade um ex-prisioneiro foragido, chefão do submundo parisiense, abrir intelectualmente os olhos do provinciano Rastignac para o funcionamento da sociedade, já que as visitas aos salões das damas da moda ainda o mantiveram no mundo das ilusões, ainda não perdidas. Vautrin tentará ser o Mefistófeles do jovem Fausto balzaquiano, procurando conduzi-lo a um estranho pacto, no qual o espectro do homossexualismo não deixa de rondar.
Na pensão Vauquer também vive, suportando o desprezo de todos, um ex-comerciante, o Pai Goriot. Os estudantes que ali fazem suas refeições julgam que ele sofre de “idiotismo”. Rastignac descobre que, de fato, Goriot sofreu um processo de empobrecimento material e embotamento mental por causa do excessivo amor às duas filhas, ambas damas da alta sociedade que sugaram todos os seus bens e rendas.
Ele apaixona-se (se é que se pode falar de enamoramento num impulso onde o cálculo é tão evidente) por uma delas, Delphine de Nuncingen. A dissecação que Balzac faz das etapas dessa paixão mútua, na qual se mesclam interesse, ambição e egoísmo, é provavelmente o ponto alto de O Pai Goriot e terá efeitos duradouros (e às vezes deletérios) na literatura francesa, mestra em autopsiar sentimentos.
Essa “paixão medida” (para utilizar a expressão drummondiana) atrapalha os planos de Vautrin, porém o destino conspirará para que ele seja afastado no momento certo. Um grande lance teatral levará a narrativa à angustiante descrição do abandono final e agonia do velho Goriot. Assistindo-a do início ao fim, Rastignac completará seu “aprendizado negativo” dos “valores” da metrópole e enterrará seu romantismo junto com o velho, lançando um desafio a Paris: “Agora nós dois”.
Pena que uma obra-prima do naipe de O Pai Goriot circule numa tradução tão sem vida, tão descuidada, como a de Sérgio Rubens (para a Ediouro, aliás uma editora que cobra muito pelo pouco que oferece em termos de qualidade gráfica e de cuidados editoriais). O leitor perguntará, então, por que não ler a tradução do livro que consta da edição completa da Comédia Humana organizada por Paulo Rónai. Simplesmente porque, apesar da inquestionável importância desse empreendimento, ali fez-se a infelicíssima opção de abrasileirar os nomes próprios e é muito difícil engolir os Eugênios, Delfinas e quejandos.
Assim, de uma forma ou de outra, desfiguraram um autor que estabeleceu as leis gerais para o romance realista, principalmente suas diretrizes psicológicas. E, de certa forma, ainda vivemos no mundo de Balzac. Quem tiver dúvida, basta dar uma olhada na história (apesar dos seus rasgos folhetinescos) de Rastignac e Goriot, personagens em que ele, com curiosa presciência, projetou não só suas ambições e expectativas, mas também sua derrocada melancólica, formando um arco que emoldura com precisão o tecido social que se alimenta da desagregação, da corrupção e da degradação para manter um pouco mais a sua sobrevida.
(uma outra versão dessa resenha foi publicada em 25 de fevereiro de 2003, e abaixo transcrevo o que ela apresenta de diferente):
É preciso fazer justiça a alguns selos editoriais pequenos, que vêm se destacando por cuidadosas edições de clássicos. Já comentei nesta coluna exemplos da Nova Alexandria, da Iluminuras, da Revan. É o caso, também, da Estação Liberdade, que lançou recentemente uma nova tradução de O Pai Goriot, um dos livro fundamentais e paradigmáticos do século XIX, realizada por Marina Appenzeller (…)
Além da boa tradução, incluiu-se como prefácio um excelente ensaio de Philippe Berthier, O festim das aranhas, que dá uma visão quase apocalíptica dos mecanismos de desejo e de interesse que movem os personagens balzaquianos (…)
A respeito do “aprendizado” de Rastignac, Berthier comenta: “em vez do espetáculo comovente de uma crisálida que se torna borboleta, assistimos, como em um filme de terror, a metamorfose maléfica de um monstro que nasce”.







