Por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Depois de ter me encantado com Reparação, encontrei The Comfort of Strangers num sebo e nem pensei duas vezes: uma pequena novela, com menos de cem páginas, esse parecia ser o livro perfeito para conhecer um pouco mais sobre Ian McEwan, autor inglês de grande prestígio e reconhecimento internacional.
O livro conta a história de Colin e Maria, um casal em férias por uma cidade turística na Europa que, apesar de não ser identificada, parece ser Veneza. Maria é divorciada e tem dois filhos, que ficaram na Inglaterra. Apesar de eles não serem casados, ambos são muito íntimos, e a forma como o autor mostra essa cumplicidade é a melhor parte da novela. A seguir um pequeno extrato que ilustra bem isso (destaque por minha conta):
They whispered and kissed, stood up to embrace, and returned to the bedroom where they undressed in semi-darkness.
This was no longer a great passion. Its pleasures were in its unhurried friendliness, the familiarity of its rituals and procedures, the secure, precision-fit of limbs and bodies, comfortable, like a cast returned to its mould. They were generous and leisurely, making no great demands, and very little noise. Their lovemaking had no clear beginning or end and frequently concluded in, or was interrupted by, sleep. They would have denied indignantly that they were bored. They often said they found it difficult to remember that the other was a separate person. When they looked at each other they looked into a misted mirror. When they talked of the politics of sex, which they did sometimes, they did not talk of themselves. It was precisely this collusion that made them vulnerable and sensitive to each other, easily hurt by the rediscovery that their needs and interests were distinct. They conducted their arguments in silence, and reconciliations such as this were their moments of greatest intensity, for which they were deeply grateful.
A primeira parte do livro é dedicada a Colin e Maria: como eles acordam, como se conhecem, as pequenas idiossincrasias, o modo como Colin exagera ao contar um pequeno fato que presenciou naquela manhã, como ambos conseguem se entender e parecem até ter esquecido que cada um é uma pessoa, como diz o próprio texto que citei. Eles aproveitam a viagem para revitalizar seu relacionamento e parecem encontrar uma oportunidade de viver algo novo ao conhecer Robert e Caroline. Robert é um homem expansivo e insiste em iniciar uma amizade com eles após um encontro aparentemente casual. Caroline é bem mais jovem que ele e tem problemas de saúde. Colin e Maria sentem-se incomodados com o modo intrusivo com que Robert se comporta, mas ao mesmo tempo são atraídos pela sua ousadia e pela aventura que eles podem viver.
Aos poucos, todavia, eles percebem alguns exageros no comportamento do casal e a história se encaminha para um turbilhão que envolve compulsão sexual e violência. Rápido assim.
Esta é a minha ressalva em relação ao livro. A primeira parte é conduzida com paciência e maestria: por meio de pequenos fatos, nós realmente conhecemos Colin e Maria. A partir do momento em que Robert e Caroline aparecem, tudo se torna muito rápido, urgente, como se o autor estivesse com pressa de terminar a história. Essa pressa levou inclusive a algumas ocasiões em que a reação de Colin e Maria parece completamente inconsistente com o que foi apresentado previamente, como se McEwan estivesse com preguiça de desenvolver o argumento. A cena final demonstra, de maneira especial, essa displicência, o que acaba tornando a leitura um tanto decepcionante, apesar do inegável talento narrativo do inglês.
Sei que a história virou um filme em 1990, nas mãos de Paul Schrader, tendo Cristopher Walken, Natasha Richardson, Rupert Everett e Helen Mirren no elenco. Oportunamente verei se a versão cinematográfica é menos decepcionante que a versão escrita.
Minha avaliação:
2 estrelas em 5
