Fotografia da minha autoria

Gatilhos: Linguagem Explícita, Referência a Aborto; Morte, Luto

Um pequeno passeio virtual pelo site da Wook permitiu-me descobrir que seria lançada outra obra de Aurora Venturini, autora que me despertou imensa curiosidade pelo seu percurso. Aliando essa informação ao facto de a ter na minha lista de 12 livros para 2024, fui à estante recuperar a história que tinha em espera.

 um romance sem heroínas

As Primas transporta-nos para a cidade argentina de La Plata, nos anos de 1940. Nesta narrativa, que nos é contada por Yuna, conhecemos uma família disfuncional, amplamente marcada e condicionada pelo contexto em que habita. A narração é feita na primeira pessoa e, desde o início, ficamos a saber duas coisas: Yuna descreve-se como deficiente e é na arte que encontra um refúgio e uma forma de se manter autónoma. Aliás, é através da pintura que desconstrói vários acontecimentos da sua vida.

Este romance de «mulheres extremas, doentes, obcecadas, maltratadas» tem um tom cru, por vezes desconfortável, porque a protagonista não omite qualquer detalhe, nem pretende atenuar ou romantizar o universo tortuoso que nos é apresentado. Não sei se o objetivo seria provocar o leitor, mas a sua irreverência desconcerta e faz-nos questionar os padrões que se repetem, a pressão social, limitações e abandono.

Nesta família, as mulheres sofrem algum tipo de incapacidade e Yuna procura viver para lá dessa realidade, ao mesmo tempo que tenta desvincular-se de um ambiente precário, violento, onde os abusos são aceites como algo natural. É durante este processo que se alia à sua prima Petra, para «fugirem à norma».

Há um misto de ingenuidade e de franqueza que não nos deixa indiferentes. Há uma partilha dura, mas igualmente cómica, porque a forma como Yuna nos interpela é fascinante. Fui avançando de um modo quase frenético, atendendo a que queria compreender como é que cada detalhe encaixaria e queria perceber se a sorte acabaria por sorrir a estas mulheres ou se o destino continuaria pautado pela miséria.

«Nos últimos tempos algumas palavras provocavam-me náuseas por coisas do passado que infelizmente nunca passam totalmente e amarguram até o dia mais esplendoroso»

As Primas tem uma cadência diferente, por vezes estranha, mas revelou-se uma experiência de leitura memorável. A autora teve a mestria de explorar temas delicados com um certo humor, sem que isso descredibilizasse o assunto. Antes pelo contrário, visto que estabelece uma ponte com os mecanismos de defesa que criamos para gerirmos tudo o que se passa à nossa volta, influenciando-nos.

A voz da narradora consegue ser vertiginosa, levando-nos a ser parte dos seus pensamentos. E o mais extraordinário é que sinto que, se fosse contada noutro tempo e noutro lugar, continuaria a fazer todo o sentido, a ser um retrato muito credível de uma realidade vulnerável.

Este livro é uma tela perversa, sem personagens heroínas, nada convencional, cuja obra de arte não fica só à superfície: mergulha nas entrelinhas de vidas comuns, de mulheres a sobreviverem à sua condição.

Nota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand