Fotografia da minha autoria

«A leitura dá-nos a oportunidade de nos 

tornarmos melhores cidadãos»

Os livros salvam-nos da desinformação e do abismo. Porque abrem-nos portas com várias possibilidades, permitindo-nos ter um propósito ou validar as nossas opções e os nossos sonhos. No entanto, tendemos a desvalorizar a sua importância, talvez, por termos um acesso regular. Mas, em locais onde essa realidade assume outros contornos, compreendemos o alcance do seu poder, bem como a valorização genuína da comunidade, visto que estes exemplares são uma ponte para o futuro - sobretudo, em zonas onde se apresenta turvo - e um rasgo de luz.

Onde os Livros São o Mundo é uma série documental, dividida em cinco episódios, que nos leva numa viagem particular e surpreendente, descobrindo o mundo através de bibliotecas itinerantes muito originais e, claro, dos seus bibliotecários improváveis, com histórias que nos desarmam e que nos permitem refletir sobre tudo o que assumimos como garantido, mas também sobre o quanto uma pessoa pode fazer a diferença no quotidiano dos demais. Os episódios estão todos disponíveis na RTP Play e têm uma duração aproximada de 26 minutos. Porém, as partilhas são tão ricas e inspiradoras, que seria uma honra escutar os seus intervenientes por um par de horas. Temos mesmo muito a [re]aprender!

 EPISÓDIO Nº1: LOGOS HOPE 

No sul das Caraíbas, há um navio diferente: o Logos Hope funciona como uma biblioteca flutuante, viajando para levar «conhecimento, ajuda e esperança». Segundo o relato de Micha Roggensinger, ficamos a saber que o projeto funciona com o apoio de voluntários. Aliás, todos os que estão a bordo têm de pagar para fazer parte desta aventura. Mas a missão é tão maior, que a abraçam sem reservas, podendo variar a sua estadia no navio. Por norma, permanecem em cada porto entre duas a três semanas, dependendo da dimensão populacional do lugar. Os habitantes embarcam mediante o pagamento de uma entrada simbólica - 0,50€ - e, assim, podem escolher os seus livros favoritos. A maior parte é de teor cristão, mas também há bastante literatura. E é interessante ver a quantidade de culturas que se reúnem no mesmo espaço e a forma como se lidam com as mesmas por um objetivo comum.

 EPISÓDIO Nº2: KITABI MASTI 

A idade não passa de um indicativo numérico, ainda para mais, quando o coração se encontra no sítio certo. No norte da Índia, mais concretamente no Bairro de Lata da cidade de Bhopal, conhecemos o testemunho de Muskaan, uma menina de 11 anos, que abre a sua biblioteca móvel às outras crianças. A iniciativa denomina-se Kitabi Masti, que significa Livros Divertidos, pois acredita que é através da literatura que têm uma oportunidade na sociedade. E a educação pode ter várias dinâmicas. É mesmo fascinante a sua dedicação e o cuidado que tem para proporcionar a melhor experiência aos pequenos leitores - como dispor os livros em cordas, para estarem mais visíveis. Este projeto, por consequência, inspirou a criação de mais bibliotecas infantis noutros bairros. E é a prova de que ler ajuda a progredir, assumindo uma importância considerável no futuro daquelas crianças.

 EPISÓDIO Nº3: O SENHOR DOS LIVROS 

Em Bogotá, José Alberto Gutiérrez conduzia um camião do lixo e foi assim que surgiu a ideia de resgatar exemplares deitados fora, abastecendo a região com literatura. A primeira obra que recuperou foi Anna Karenina, de Tolstói, e, a partir desse momento, compreendeu que podia fazer a diferença na vida da comunidade. Além disso, em conjunto com a sua mulher, criou a Fundação Força das Palavras, cuja missão passa por encher a Colômbia de livros, pois são um meio de alcançar a paz. Foi, muito provavelmente, o meu episódio favorito, não só pela essência do protagonista, mas também pela adesão dos jovens, que é inspiradora. Paralelamente, nota-se a gratidão nos seus olhares, o que é bastante comovente. Ao entrar na sua biblioteca, por muito que ainda só tenha lido A Sombra do Vento, senti-me a ser transportada para uma obra de Carlos Ruiz Zafón, com o seu Cemitério dos Livros Esquecidos.

 EPISÓDIO Nº4: STREET BOOKS 

Laura Moulton abraçou o compromisso de levar livros às pessoas que vivem nas ruas de Portland. Ao volante da sua biblioteca, com uma caixa cheia de exemplares, devolve aos sem-abrigo um certo sentido de pertença e outro nível de participação na sociedade. Ben Hodgson, que também já viveu na rua, faz parte do projeto e tem sido um membro indispensável, até porque nos permite compreender os dois lados da moeda. Promovendo um mistério sobre rodas, há algo que pretendem combater: «se uma pessoa não tiver dinheiro ou uma residência permanente, não consegue ter acesso ao mundo dos livros» e isso é limitador. Além do mais, potenciando a literacia, querem que as obras circulem. Por isso, convidam os leitores a devolvê-las na semana seguinte, mas não passam multas, nem estão propriamente preocupados em recuperá-las. Nesta iniciativa as pessoas não têm qualquer rótulo.

 EPISÓDIO Nº5: BIBLIOMOTOCARRO 

António La Cava é um antigo professor e viaja, há anos, pelo país - Itália - na sua bibliomotocarro, com o intuito de encorajar as crianças a ler e de evitar que se desliguem dos livros. A biblioteca móvel, em tons de azul celeste, tem a forma de uma casa, porque a casa é um refúgio e pretende passar a mensagem de que os livros também o são. Em simultâneo, mostra a importância da articulação entre a escola, o nosso lar e os vários espaços de educação, pois tem de existir um estímulo prolongado. Outra particularidade deste projeto é que a Bibliomotocarro vai onde é precisa, uma vez que ainda há muitas crianças privadas destes recursos preciosos. E, para além dos manuscritos, há vários livros brancos, para que os miúdos possam escrever livremente e/ou continuar as histórias que descobriram.

Onde os Livros São o Mundo permite-nos, ainda, conhecer a história das pessoas e dos lugares. E acho delicioso que, no início do episódio, partilhem uma espécie de dedicatória. Porque ler é, de facto, partilhar. E estas pegadas estão a tornar o mundo num local mágico.