Tinha pensado em várias outras possibilidades para este tema, mas acabei por escolher uma peça de Sartre. Sendo que leio francês, nunca li Sartre no original.

As Mãos Sujas é uma peça em sete actos, que tem a sua acção num país fictício, Ilíria, que fica algures na Europa Central. A título de curiosidade, Ilíria foi, na antiguidade clássica, o nome de uma parte dos Balcãs (Dalmácia, ex-Jugoslávia e por aí), e é também o local da acção do Twelfth Night do Shakespeare.

A peça passa-se maioritariamente em flashbacks; a personagem principal, Hugo Barine, libertado da prisão, relata como assassinou um político, dois anos antes. Ou seja, a identidade do assassino é sabida desde logo - a questão aqui é a sua motivação. Pessoal ou política? Não é um "quem o fez"; é um "porquê".

Hugo, de origens burguesas, tinha-se juntado ao partido comunista que procurava lutar contra o nazismo e, de modo a obter o reconhecimento e confiança dos camaradas, ofereceu-se para assassinar Hoederer, um líder partidário acusado de conluio com outras forças políticas. Cansado de ficar nos bastidores, na produção escrita da luta partidária, Hugo preenchia todos os requisitos que Hoederer tinha para um secretário, ocupando, então, esse lugar.

Porque Hugo achava que ser um escritor não era "trabalho sério". Porque queria sujar as mãos, agir.

Mas, se Hugo já não parece talhado para a missão, a sua situação piora quando, gradualmente, descobre em Hoederer uma inspiração e até mesmo um amigo. Hugo acaba por cumprir a sua missão - mas, novamente, a grande questão do livro é o porquê. Aqui, o enquadramento político serve apenas enquanto isso mesmo: enquadramento para um dilema existencial.

Porque Hugo tenta dar significado à sua vida, mas não o encontra. Constrói a sua vida e o seu mundo em torno de idealismo político, mas não compreende que o idealismo é só e apenas isso, entrando em confronto com uma visão do mundo mais pragmática.

E, pior: não sabe lidar com o seu privilégio, motivo pelo qual aceita a missão. Acha que o seu berço aristocrático o impede de ser visto verdadeiramente como membro do partido. Quer sujar as mãos. Acha que é esse o acto heróico que o irá elevar e que irá trazer significado a tudo. É um péssimo personagem, por estes motivos, mas é impossível odiá-lo devido à sua integridade.

HUGO: E o melhor meio que achou para lutar contra ela foi propor-lhe que partilhasse o poder consigo?
HOEDERER: Exatamente. Hoje é esse o melhor meio. (Pausa.) Como tu prezas a tua pureza, meu filho! Que medo que tens de sujar as mãos! Pois bem, fica puro! Quem é que aproveitará com isso, e porque é que vens então meter-te connosco? A pureza é uma ideia de faquir e de monge. Vocês, os intelectuais, os anarquistas, utilizam-na como um pretexto para não fazer nada. Não fazer nada, ficar imóvel, apertar os cotovelos ao corpo, usar luvas. Pois eu tenho as mãos sujas. Até aos cotovelos. Mergulhei-as na merda e no sangue. E depois? Imaginas que se pode governar inocentemente?

Qual é a possibilidade (ou capacidade) de Hugo mudar, de se definir contra tudo aquilo que crê que o define? Abandonara a sua família e juntara-se ao partido quando compreendeu o que era a opressão; mas quão preso está ao determinismo, às correntes do seu próprio passado? Como é que este define as suas escolhas?

E é muito provavelmente por isto que Hugo procura, de todos, validação: de Olga, de Jessica, de Louis - acima de tudo, de Hoederer. Mesmo não parecendo apreciar particularmente nenhum deles (nem a própria esposa), a sua aceitação é-lhe essencial para o validar.

Uma descomunal crise identitária.

5/5