Matheus Lopes Quirino
A coisa mais excitante para um editor é ler um texto bom. Não necessariamente algo bem escrito nos padrões da língua portuguesa canônica – e anacrônica –, mas algo atemporal, pulsante, uma coisa difícil de explicar, a não ser transcrevendo naquelas palavras o tal texto.
Trabalhar com palavras é se surpreender, de vez em quando, com um texto que poderia ser até burocrático… mas não é. Quase como se estivéssemos peneirando ouro, separando terra, pedra e ganga dos resíduos reluzentes. Thaís usa palavras reluzentes e devia escrever mais.
Aprendi a palavra ganga, inclusive, com ela, minha professora de literatura. Líamos um conto de alguém que não lembro agora. Ela parou a sessão coletiva para explicar o significado de ganga. Fez sentido, pois, naqueles tempos, alguma barragem rompeu por causa da mineração. Como boa professora, ela trouxe o noticiário, analisou as coisas pela literatura, deu uma saraivada política nos reacionários da sala e amarrou tudo muito bem como uma maestrina.
A vida segue depois daquela aula inesquecível e, bons anos pela frente, quando a editora Record lança Educação Natural, textos póstumos e descobertos do escritor João Gilberto Noll, não me lembro exatamente porque, resolvo pedir um texto para Thaís.
Lá estou editando o Aliás, o extinto suplemento de livros do jornal O Estado de S. Paulo. No ofício, muita leitura. Textos bons, textos ok, textos nem tão bons, mas nada (geralmente) impublicável. Quando o texto de Thaís chega, paro para ler. Dá vontade de sorrir.
Chamo meu editor e lemos outra vez, sorrimos, vemos como ela tratou das intersecções entre literatura e música na obra de Noll. Era uma sensação muito boa. Pedir um texto e o resenhista acertar. Em tudo: nas palavras, no tom, na musicalidade do texto, nas escolhas. A vida é engraçada.
Há uma década, lá estava eu sendo lapidado, peneirado, descoberto por Thaís, que teve toda paciência e empenho no ensino da escrita e me abriu muitos caminhos. Editar um texto dela, ainda mais no caderno de literatura que sempre quis editar, me deu um sentimento bom. Um ano depois, o Aliás já não existia, mas o livro levou o prêmio Jabuti na categoria Conto. O texto cumpriu seu papel, espalhou o livro.
São pequenas coisas que, no macro, podem ser desimportantes, acabam tendo algum significado. Claro, as palavras do autor são as palavras do autor. Um resenhista é apenas um amplificador. É um fator, bem-vindo, que devia ser mais incentivado. Esse episódio, o meu eu aluno estava li, vibrando por dentro, com o eu professor dela, que, um dia, vibrou, quando pude dar os passos sozinho.

Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino