(José Pedrosa e Nilo Tavares, em frente à Livraria Pedrosa)

A literatura fantástica e de ficção científica usa de modo recorrente o conceito de Portal (em inglês, “gateway”): uma fenda ou atalho no espaço-tempo, um limite que, uma vez cruzado, transporta o indivíduo a outro ponto do Universo, por mais remoto que seja. Uma espécie de cabine telefônica: o sujeito entra nela em Londres, aperta um botão, e ao sair está na Lua ou em outro sistema solar. 

Havia um desses portais na Campina Grande onde cresci. Algumas horas passadas lá dentro equivaliam a meses ou anos passados não apenas em outros pontos do espaço, mas em outros períodos do tempo, fosse o Brasil colonial, a Inglaterra vitoriana ou o antigo Egito.

Agachado junto às estantes e aos balcões da Livraria, sob o olhar sempre vigilante e sempre condescendente de Seu Pedrosa, desenvolvi desde menino a nobre arte de ler um livro por fora, quando não podemos comprá-lo: ler a contracapa, a orelha, o índice, o prefácio, as legendas das ilustrações. 

Não aconselho esse método aos intelectuais sérios, mas recomendo-o vivamente aos meninos de dez anos cuja curiosidade pelo mundo está na proporção inversa da mesada que recebem. Foi ali que desenvolvi o hábito de, indo a uma livraria, passar o pente fino. Parede por parede, estante por estante, lombada por lombada. Em meia hora leio o equivalente a um livro inteiro; e então pego um volume previamente escolhido e levo-o ao caixa, para dar ao livreiro um mínimo de compensação.

Não era a única boa livraria daquela Campina Grande. A Livraria Nova, em frente ao Alfredo Dantas, me proporcionou muitas descobertas e revelações; na Livraria Universal, na frente da galeria do Palomo, comprei meus primeiros livros de cinema; a lojinha das Edições de Ouro, ao lado do Capitólio, era uma pequena gruta de Aladim; e foi no sebo de Câmara, perto da Varig, que descobri o “Kaos” de Jorge Mautner e minha primeira antologia de Drummond. 

Mas a Pedrosa era a soma disto elevada ao quadrado. Quando fui a Lisboa receber um prêmio de ficção científica, tive que explicar aos amigos portugueses que não era carioca, apesar de morar no Rio, e que conhecera a ficção científica comprando, numa livraria do interior da Paraíba, os livros portugueses da “Colecção Argonauta”.

O tempo passa, tão devagar quanto os cabelos pretos. Quando cruzo aquela esquina já não vejo a Livraria, mas ainda escuto a voz de meu pai: “Me pega na Pedrosa às duas, pra gente descer de táxi.” Descobri que as livrarias passam, mas já tinha descoberto antes que os livros ficam; e não será por saber disto que alguns homens se animam a criar livrarias? 

O correr da vida faz com que se fechem alguns dos Portais que nos transportavam a outros mundos, mas é da natureza destes portais fazer com que a gente aprenda a passar sozinho para o outro lado. Ainda tenho livros onde continua pregado aquele selinho amarelo dizendo: “Faça do Livro o seu melhor Amigo”. O que teria sido de mim sem esta frase?