Quase cinco anos após o lançamento de A descida do Monte Tabor, a produção poética de Hugo Langone parece ter se concentrado em preencher suas gavetas com inéditos. Desde então, foram dois livros infantis publicados (e muitas traduções de infantis estrangeiros) e uma compilação de textos sobre arte, cultura e escrita que veio a público sob o título A tirania da arte — nada, contudo, com versos inéditos do autor.

Hoje, o Estado da Arte abre a gaveta de Hugo Langone e traz alguns poemas escritos após a publicação de A descida do Monte Tabor.


Mar insone

Troveje tua voz
como se às costas dos ventos,
como se da boca tua revoassem pássaros
sobre o horto que é minha vida.
Quando queres, ó mar,
não se apaga a gravidade deste mundo:
é toda a minha vida o que pedes.

***

Em noite alta entrever
os brotos novos da
mangueira
(a primavera é oculta)

É isto então tudo, 
a lição inteira e a
palavra dita antes
da fundação do mundo 

***

Madri
não amanhece.

Algures um monge de
preto clama
vinde,
aurora.

Pede em vão.

Para que cumpramos nossa vocação,
haveremos de achar
o cântico na noite.

***

Férias

Quando com Camila

Nossa vida não se afana
no descompasso dos sonos.
Por vezes ela finca os pés trazendo dó nas pupilas e apalpa,
como se seu,
o vinco de nossos rostos.
Esta clemência: a ela devemos
que hesite o dia e se estenda, calmo,
sobre o lago de tilápias,
ao qual apraz repousar enquanto aprendem juntas
A pescar nossas crianças.

***

Vede Maria, a dum corpo trêmulo,
Maria Zambrano, esta
que pelas ruas vai
de Roma a recolher os gatos
porque crê: se multiplicados,
há de tê-los para sempre. 

Maria, Maria, a morte vem,
e o mistério será sempre mistério.
Maria, tudo escoa,
e choraremos.


Hugo Langone, nascido no Rio de Janeiro mas radicado, hoje, no interior de São Paulo, é poeta e editor. Publicou, na poesia, os livros Do nascer ao pôr do sol, um sacrifício perfeito e A descida do Monte Tabor. Como ensaísta, assinou A tirania da arte: ensaios de cultura e escrita e Chorar por Dido é inútil: Santo Agostinho, as Confissões e o manejo da literatura pagã. Também é autor de dois livros infantis.