(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de dezembro de  2003)

“Acenda a primeira página, acenda a segunda página. Cada uma se torna uma borboleta preta. Linda, não é? Acenda a terceira página na segunda e assim por diante, fumaça em cadeia, capítulo a capítulo, todas as coisas estúpidas que as palavras significam, todas as falsas promessas, todas as noções de segunda mão e filosofias desgastadas pelo tempo.

        Ali estava Beatty, sentado, transpirando ligeiramente, o chão forrado de enxames de mariposas pretas, mortas numa única tempestade.”

O mais chocante na leitura de Fahrenheit 451 (cuja publicação pela editora Globo, na tradução de Cid Knipel coincide com seu cinqüentenário) é que o romance poderia ter sido escrito hoje em dia, talvez até (pois apresenta uma qualidade literária surpreendente) por um dos mestres da pós-modernidade, um Paul Auster, um Don DeLillo, um J.G. Ballard… A atualidade do estilo e da problemática do clássico de Ray Bradbury é assustadora.

Sua trama é mais conhecida aqui no Brasil por causa do filme de François Truffaut (no qual alguns detalhes importantes foram modificados): num futuro vago, as cidades norte-americanas aboliram os livros (e, com eles, a História, a Filosofia, a Literatura). A população só quer saber de diversão, com programas televisivos onipresentes e interativos, ocupando as paredes das casas; os jovens precisam de velocidade e violência (há uma cena impressionante em que um grupo de crianças tenta atropelar o protagonista, Montag).

Quando se descobre uma casa com livros, os bombeiros são chamados. Sua função: incendiá-los (só essa inversão já garante a originalidade de Fahrenheit 451; o título, aliás, se refere ao grau de temperatura para que o papel atinja combustão). Montag é um bombeiro que começa a questionar seu modo de vida, o fato de que o mundo “sempre foi assim” (se a memória não é preservada, o passado desaparece). Ele começa a se angustiar com a falta de comunicação com a esposa, Mildred (outra cena marcante é a do quase-suicídio dela, por “desatenção”). Torna-se um renegado, assassina Beatty, seu superior (cujas palavras abrem este artigo), é perseguido como um perigoso facínora… Até que encontra em sua fuga um grupo de homens que se dedica a manter viva a memória dos livros: cada um sabe de cor uma obra e assim elas não podem ser totalmente destruídas (diga-se de passagem, diz-se que Hannah Arendt tinha decorado vários livros que reputava essenciais, em sua fuga do extermínio nazista).

O romance termina em aberto, com Montag “caindo na estrada” após testemunhar uma cidade sendo assolada por bombas, marcando o início de uma nova guerra…

Pelo resumo acima, percebe-se que Fahrenheit 451 capta a vocação totalitária dos EUA, onde o suposto medo de um inimigo sempre dá margem ao cerceamento da liberdade individual e dos direitos civis. Por outro lado, num plano mais geral, vemos magistralmente focalizada uma das pragas da nossa época: a obrigação da diversão. Todos ficam neuroticamente condicionados a aproveitar os momentos de lazer em diversões programadas, em baladas, agitos, e quanto mais ruidosos e invasivos melhor, todos têm que participar, todos têm que se divertir de forma igual. No final, a própria “diversão” é um sintoma de estresse, da loucura geral.

Na edição que está lançando (que peca pela convencionalíssima e nada imaginativa capa), a Globo incluiu dois arrasadores posfácios de Ray Bradbury, escritos trinta anos depois da publicação original. Particularmente provocador é o segundo, no qual ele polemiza com as minorias que, de forma tão típica nos EUA,  adoram proscrever coisas em função do politicamente correto: ele conta que enviou uma peça a um teatro universitário, cujos administradores alegaram não poder montar porque não havia mulheres no texto!

“…Sugeri que isso significava doravante não mais produzir Os rapazes da banda (nenhuma mulher) ou The women (nenhum homem)… este é um  mundo louco e ficará mais louco se permitirmos que as minorias—sejam elas de anões ou gigantes, orangotangos ou golfinhos, adeptos de ogivas nucleares ou de conversações aquáticas, pró-computarologistas ou neoludditas, débeis mentais ou sábios—interfiram na estética… Em suma, não me insultem com decapitações, decepações de dedos ou esvaziamento de pulmões que pretendam fazer em minhas obras. Preciso de minha cabeça para rejeitar ou assentir, minha mão para saudar ou fechar em punho, meus pulmões para gritar ou sussurrar. Não irei gentilmente para uma prateleira, eviscerado, para me tornar um não-livro.”