(duas resenhas publicadas originalmente em A TRIBUNA de Santos, a respeito do centenário de Esaú e Jacó, em 17 de fevereiro & 24 de fevereiro de 2004)
I- “O MELHOR É LER COM ATENÇÃO”
Bem menos famoso e apreciado que a trilogia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, mesmo assim Esaú e Jacó atinge seu centenário como um dos grandes momentos da obra machadiana, um exercício superior de narrativa, sempre brincando de gato e rato com as expectativas do leitor-padrão de romances da época (principalmente o público feminino) e até o de hoje, mesmo no mundo pós-moderno, pois ele ainda continua se fiando na aparência da história, sem discussão ou desconfiança. Quando muito, acha-a chata, pois parece que “nada acontece”, quando tudo já aconteceu.
Por exemplo, interrompendo o fio da narração devido a alguns fatos contraditórios, esse reparo (entre os vários, ao longo do romance): “Um bom autor que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel, mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção”.
Além disso, temos um personagem maravilhoso, uma espécie de procurador ficcional do ceticismo compassivo alcançado pelo nosso maior autor, o Conselheiro Aires, que reaparecerá no cruel Memorial de Aires. Pela “Advertência” anteposta ao livro, parece que ele é o narrador. Porém, o mesmo processo de desdobramento e enfatização das dualidades da trama principal acontece aqui: distanciando-se de si mesmo, Aires sempre se vê de fora, de uma forma alusiva e irônica, que tanto narra quanto deixa a dúvida no ar. Veja-se o seguinte trecho, após um diálogo com Flora: “os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que lhes diz um rosto calado, e até o contrário. Aires fora diplomata excelente, apesar da aventura de Caracas[uma aventura sexual, relembrada anteriormente no romance], essa mesma lhe aguçou a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dois verbos parentes”.
Descobrir e encobrir, eis a grande arte de Esaú e Jacó: tudo é aparentemente muito simples, temos dois gêmeos, Pedro e Paulo, um monarquista, o outro republicano, ambos amando a mesma moça, Flora, que, dilacerada pela sua indecisão em optar ou pelo cauteloso e dissimulado Pedro ou pelo impulsivo e truculento Paulo, acaba morrendo, apesar da intervenção benigna do Conselheiro Aires, o qual, na sua juventude, mantivera uma paixão discreta pela mãe dos gêmeos, Natividade. Esse triângulo amoroso acontece justamente na passagem da Monarquia para a República, que afeta a carreira do pai de Flora, um político medíocre que tem de passar por liberal para se manter na ativa durante o período republicano (este, no entanto, se mostra muito pouco liberal). Diga-se de passagem, os personagens secundários, como esse pai, Batista, ou sua mulher, d. Cláudia, são daqueles que roubam a cena.
Uma leitura do romance poderia ser a alegórica: os gêmeos abraçando cada qual um regime político diferente demonstrariam figuradamente a semelhança e continuidade mesmo na aparente mudança. Machado vai mais longe ao mostrar esse embate pelo viés oblíquo de outras personagens, como a mãe, Natividade, ou o Conselheiro Aires, e principalmente a ambígua Flora. Dessa forma, mais do que um momento da nossa história (embora haja cenas inesquecíveis como a angústia do dono da confeitaria que fica na dúvida se mantém ou não o título Confeitaria do Império) surpreendemos, como em Shakespeare, as contradições inelutáveis da condição humana, aquelas que nos mantêm insatisfeitos e presas de paixões e obsessões.
II- REALISMO SIM, MAS SIMBÓLICO
“Natividade confiava na educação, mas a educação por mais que ela a apenas quebrava as arestas ao caráter dos pequenos, o essencial ficava, as paixões embrionárias trabalhavam por viver, crescer, romper, tais quais ela sentira os dois no próprio seio, durante a gestação…”
Na época da publicação (1904) do agora centenário Esaú e Jacó, o Naturalismo (na sua faceta mais pobre) dominava a cena da ficção brasileira, como uma espécie de rebento bastardo do folhetinismo romântico; nele, se operava a suprema degradação da substância humana: em meio ao materialismo triunfante, as verdadeiras motivações do ser humano residiam no biológico, no instintivo e no fardo hereditário. Portanto, as tramas fundamentavam-se no atavismo.
A citação de abertura poderia indicar que Machado de Assis seguiu o Zeitgeist, o espírito do seu tempo, na história dos gêmeos Pedro e Paulo, opostos em tudo, e que se apaixonam pela mesma garota, Flora, tal como fez num conto publicado dois anos depois, “Pai contra Mãe” (de Relíquias de Casa Velha). Entretanto, Machado fez mesmo foi antecipar um dos procedimentos mais marcantes do Alto Modernismo (que tem em Joyce, Proust, Faulkner, Mann, Guimarães Rosa, alguns dos seus principais representantes): o realismo simbólico ou mitológico. Ou seja, o mundo inteiro é dessacralizado, os valores são burgueses e capitalistas, e ainda assim os grandes escritores reencontram os velhos mitos e fazem com que eles recirculem em meio ao quotidiano trivial e efêmero.
É assim que Joyce foi buscar na Odisséia homérica a moldura para contar um dia na vida de Dublin em Ulisses. E é assim que Machado procurou na Bíblia (e em outros desdobramentos mitológicos, como a lenda de Castor e Pólux) a matriz da sua ambígua alegoria da passagem da Monarquia para a República, além de restaurar os signos do Destino (oráculos, profecias), tão comuns na mitologia clássica. Veja-se a facilidade e perícia (às vezes até excessiva) com que o narrador salta do universo burguês para os primórdios do teatro do mundo: “Daí a pouco, Santos pegou na mão da mulher, que a deixou ir à toa, sem apertar a dele; ambos fitavam os meninos, tendo esquecido a zanga para só ficarem pais. Já não era espiritismo, nem outra religião nova, era a mais velha de todas, fundada por Adão e Eva…” É nesse sentido que, na seção anterior, comparou-se Machado de Assis e Shakespeare, na capacidade de superar o registro histórico e detectar o que é constante no ser humano e que ultrapassa modas ou gêneros literários.
E em 1904 Machado já estava num nível de percepção (e elaboração) de linguagem que um Thomas Mann atingiria anos depois, como no excepcional capítulo “A grande noite”, um momento de delírio de Flora, na sua inútil tentativa de conciliar numa só figura os dois gêmeos (um “cá”, outro “lá”): “Unicamente –e aqui toco o ponto escabroso do capítulo—achou cá alguma coisa indefinível que não sentira lá; em compensação sentia lá outra coisa que não se lhe deparou cá. Indefinível, não esqueças. E escabroso porque nada há pior que falar de sensações sem nome. Crede-me, amigo meu,e tu, não menos, amiga minha, crede-me que eu preferia contar as rendas do roupão da moça, os cabelos apanhados atrás, os fios do tapete, as tábuas do teto e por fim os estalinhos da lamparina que vai morrendo… Seria enfadonho, mas entendia-se”. Como o autor de A montanha mágica (1924) amaria esse: “E escabroso porque nada há pior que falar de sensações sem nome”!, assim como um Henry James não desdenharia jamais de escrever uma novela como Casa Velha (1885).
Flora, aliás, é uma das muitas vítimas de herdeiros mimados e improdutivos que abundam na obra machadiana, como as agregadas da fase anterior (Helena, a Lalau de Casa Velha) e até mesmo aquelas que conseguem se tornar esposas, como Guiomar, de A mão e a luva, e Capitu, de Dom Casmurro (esta, com os resultados que conhecemos).
Só resta lamentar, que à exceção da Garnier e da Nova Fronteira, que nem são tão recentes assim, não haja nenhuma edição não-paradidática moderna e satisfatória disponível no centenário de uma das nossas maiores obras literárias.
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https://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-a-luva-de-pelica-a-jane-austen/




